Distorção nos sonhos: desejo e seus disfarces
- Jéssica Domingues
- há 11 horas
- 6 min de leitura
Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos”
A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos
Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.
Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.
Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.
Capítulo 4 - A distorção onírica

Se o sonho é realização de desejo, por que sonhamos coisas desprazerosas?
Essa pergunta — simples, quase inevitável — atravessa todo leitor de A Interpretação dos Sonhos e ocupa um lugar central no Capítulo IV, dedicado ao problema da distorção nos sonhos. Afinal, não são raros os sonhos penosos, os sonhos desagradáveis, aqueles que parecem transportar para o sono o que, na vigília, já pesa demais.
Freud não contorna essa objeção. Ele a toma como ponto de partida para avançar teoricamente.
A objeção: e os sonhos desagradáveis?
Diversos autores, antes e contemporâneos de Freud, já haviam observado que muitos sonhos não trazem prazer algum. Há sonhos marcados pelo desprazer, pela frustração, pelo mal-estar — o que pareceria incompatível com a ideia de que o sonho seja realização de desejo.
À primeira vista, os sonhos desagradáveis colocariam em xeque a própria tese freudiana.
Mas Freud propõe um deslocamento decisivo:sua teoria não se apoia no exame isolado do conteúdo manifesto do sonho, mas naquilo que a interpretação dos sonhos permite alcançar.
Conteúdo manifesto e conteúdo latente
O sonho apresenta imagens, cenas, afetos — esse é seu conteúdo manifesto, aquilo que pode ser lembrado e narrado ao despertar. No entanto, esse material não coincide necessariamente com os pensamentos que o produziram.
Freud insiste na distinção entre o que o sonho mostra e o que nele opera. Um sonho pode ser desagradável em sua forma e, ainda assim, responder a um desejo quando analisado em seus encadeamentos latentes.
Quando um sonho incomoda, muitas vezes é porque tocou algo que ainda não encontrou outra forma de dizer.
A objeção aos sonhos desagradáveis perde força quando se percebe que, muitas vezes, sequer se tentou interpretá-los.
Por que o desejo aparece disfarçado?
A questão central do capítulo não é apenas se os sonhos realizam desejos, mas por que essa realização raramente se apresenta de forma direta.
Mesmo sonhos que não são aflitivos — como o sonho da injeção de Irma — não expressam claramente aquilo que realizam. Exigem trabalho associativo, deslocamentos, aproximações sucessivas.
É nesse ponto da obra que a distorção nos sonhos passa a ser compreendida como efeito direto do conflito entre instâncias do psiquismo. O sonho não se dissimula por incapacidade expressiva, mas porque o desejo encontra resistência ao buscar acesso à consciência.
Distorção nos sonhos e o conflito entre instâncias psíquicas
A análise de seus próprios sonhos permite a Freud formular uma hipótese fundamental:os sonhos se constituem sob a ação de duas forças psíquicas.
Uma delas é responsável pela produção do desejo que busca expressão. A outra exerce uma função defensiva, regulando o acesso desses pensamentos à consciência. É dessa tensão que nasce a distorção nos sonhos.
Em termos freudianos deste momento da obra:o sonho realiza um desejo da primeira instância psíquica, mas provoca desprazer na segunda, que tenta se defender dele.
A distorção não elimina o desejo; ela o transforma. Altera sua forma, desloca seus elementos, suaviza ou inverte certas posições para torná-lo suportável ao aparelho psíquico.
Sonhos que parecem negar o desejo
É nesse ponto que Freud pode abordar sonhos que, à primeira vista, parecem contradizer sua teoria: sonhos de frustração, de falha, de punição ou de perda.
A interpretação mostra, repetidas vezes, que esses sonhos não negam o desejo, mas realizam outros desejos, menos evidentes e mais difíceis de admitir — desejos de que algo não aconteça, de que o outro falhe, de que uma posição se inverta, de que uma verdade incômoda seja recusada.
Há desejos que só se consegue expressar por camadas, alusões e deslocamentos.
Entre o que se deseja e o que se pode dizer, o sonho inventa formas.
O que isso implica para a interpretação dos sonhos
Interpretar não é decifrar um código oculto nem arrancar uma verdade que o paciente “não quer ver”. A interpretação não se opõe à distorção nos sonhos; ela trabalha com ela.
A distorção indica o ponto de conflito, o lugar onde algo precisou se transformar para poder aparecer. É ali que o trabalho analítico se orienta.
A pessoa contará para si o que pode, do modo que consegue, e entre suas distorções, as fendas do inconsciente se abrem para que seja possível um contato mais honesto consigo mesmo e com o que se deseja.
FAQ — A distorção nos sonhos
1. O que Freud chama de distorção nos sonhos?
Freud utiliza o termo distorção nos sonhos para descrever o modo como o desejo se transforma ao buscar acesso à consciência. Em vez de se apresentar de forma direta, o desejo sofre alterações em sua forma — deslocamentos, inversões, disfarces — como efeito do conflito entre instâncias do psiquismo.
2. Por que a distorção nos sonhos acontece com tanta frequência?
A distorção ocorre porque o desejo encontra resistência ao tentar se tornar consciente. Há pensamentos que, se aparecessem sem transformação, provocariam desprazer excessivo ou conflito psíquico. A distorção permite que algo do desejo se expresse sem que o equilíbrio do aparelho psíquico seja rompido.
3. Qual a diferença entre conteúdo manifesto e conteúdo latente no sonho?
O conteúdo manifesto corresponde às imagens, cenas e afetos que o sonhador recorda ao despertar. Já o conteúdo latente diz respeito aos pensamentos e desejos que deram origem ao sonho e que só se tornam acessíveis por meio da interpretação. A distorção nos sonhos atua justamente na passagem entre esses dois níveis.
4. Como a distorção nos sonhos se relaciona aos sonhos desagradáveis?
Os sonhos desagradáveis não negam a presença de desejo, mas indicam que sua expressão ocorreu sob conflito. Nesses casos, o desprazer aparece como efeito da defesa exercida por uma instância psíquica diante da tentativa de expressão de um desejo que encontra resistência. É importante lembrar que, neste momento da obra, a pulsão de morte ainda não havia sido conceitualizada; o conflito é pensado nos termos das instâncias psíquicas da primeira tópica e de suas defesas, e não a partir de uma teoria posterior da destrutividade.
5. O que a noção de distorção nos sonhos muda na interpretação psicanalítica?
A interpretação deixa de buscar um sentido oculto a ser decifrado e passa a acompanhar o modo como o desejo conseguiu se dizer. A distorção orienta o trabalho clínico ao indicar onde há conflito, resistência e transformação, permitindo uma aproximação mais cuidadosa do que está em jogo para o sujeito.
Referência:
Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 4.
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Sobre a Autora:
Jéssica Domingues é psicanalista com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Atende adolescentes, adultos e casais em consultório particular, com atendimento presencial em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. Participa de grupos de estudos voltados à psicanálise contemporânea. Interessa-se por temáticas como depressão, luto, repetição e as formas atuais de mal-estar. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes de 2022.
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