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O sonho da injeção de Irma: Freud se coloca em análise

  • Foto do escritor: Jéssica Domingues
    Jéssica Domingues
  • 21 de jan.
  • 5 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 2 - O método da interpretação dos sonhos: a análise de uma amostra onírica


Imagem onírica e abstrata em tons suaves, com névoas e um arco luminoso difuso, evocando o texto “O sonho de Irma: Freud se coloca em análise”, no blog da psicanalista Jéssica Domingues.
E se interpretar não fosse decifrar, mas sustentar um percurso?

Freud não escolhe o sonho de Irma por acaso.Ele poderia ter recorrido a sonhos de pacientes ou a exemplos menos implicados, preservando uma distância confortável entre quem formula o método e aquilo que é examinado. Mas escolhe um sonho próprio. Com esse gesto, afirma algo decisivo: o método vale também para ele.


No sonho de Irma, analisado por Freud em A Interpretação dos Sonhos, quem interpreta e quem é interpretado coincidem. Não se trata de falar sobre alguém, mas de sustentar a interpretação em primeira pessoa. Freud não ocupa uma posição exterior; ele se coloca no interior do trabalho associativo, acompanhando o que emerge sem antecipar conclusões.


O sonho cumpre uma função didática — não como simplificação, mas como demonstração rigorosa do método em operação.


Um sonho que se deixa trabalhar


Freud não busca um sentido global imediato. Ele suspende a compreensão apressada e fragmenta o sonho. Cada frase, cada imagem, cada sensação corporal é tomada isoladamente, antes de qualquer tentativa de síntese.


O método avança por aproximações sucessivas. O sentido não se revela de uma vez; ele se constrói no percurso das associações. Aquilo que operava de modo difuso começa a ganhar contorno à medida que o trabalho se sustenta no detalhe.


É apenas ao final desse percurso minucioso que Freud pode formular algo decisivo: o sonho se organiza como realização de desejo — ao menos até este ponto de sua elaboração teórica.


O sonho da injeção de Irma e a realização de desejo em Freud


O desejo realizado no sonho da injeção de Irma não tem nada de edificante. Trata-se de um desejo simples e pouco confortável: o desejo de não ser responsabilizado pelo sofrimento da paciente.


Ao reconstruir o sonho, Freud identifica uma série de explicações possíveis — orgânicas, circunstanciais, atribuídas a terceiros — que se contradizem entre si, mas convergem para um mesmo efeito: afastá-lo da culpa pela não melhora de Irma. A coerência do sonho não está na lógica das explicações, mas na função que exercem.


No sonho de Irma, Freud mostra como a realização de desejo não se apresenta de forma idealizada. O sonho organiza uma defesa, redistribui responsabilidades e sustenta uma posição psíquica possível naquele momento.


Aqui, o desejo não aparece como algo a ser corrigido, mas como algo a ser reconhecido. A interpretação não visa eliminá-lo, mas torná-lo pensável — e, junto a ele, evidenciar o sentimento de culpa que atravessava essa situação clínica, com suas ambiguidades e impasses.



Aproximação, não exposição


A interpretação, nesse ponto, não funciona como revelação violenta. Não se trata de expor algo oculto de maneira abrupta, nem de impor uma verdade que o psiquismo não possa sustentar.


O trabalho associativo permite uma aproximação gradual daquilo que já estava presente, ainda que de forma contraditória. A interpretação cria um espaço onde esses elementos podem ser ligados e elaborados.


Ela não promete conforto imediato — mas também não deve produzir violência. O método não força um sentido; ele acompanha o tempo necessário para que algo possa ser reconhecido.


O alcance clínico do sonho de Irma


Ao analisar o próprio sonho, Freud mostra que a interpretação não se limita ao conteúdo onírico. Ela incide sobre a posição de quem sonha. Interpretar não é absolver nem acusar; é deslocar.


No sonho de Irma, o trabalho interpretativo reorganiza afetos ligados à culpa, à responsabilidade, ao fracasso e ao limite do tratamento. Freud não se coloca acima desse processo. Ele se inclui nele.


Esse ponto é decisivo para a clínica. A interpretação não busca produzir versões ideais de si nem corrigir falhas. Ela permite uma relação menos defensiva com aquilo que insiste e retorna.


Um método que permanece aberto


Ao final da análise deste sonho, Freud reconhece que o trabalho não se esgota ali. Outras associações poderiam ter sido seguidas. Outros sentidos poderiam emergir. Essa abertura não fragiliza o método; ela o caracteriza.


O inconsciente não se organiza como algo a ser resolvido definitivamente. A interpretação não oferece uma chave totalizadora. Ela inaugura um trabalho.


Por isso, o sonho de Irma permanece como um dos pontos centrais da interpretação dos sonhos em Freud: não como modelo fechado, mas como o primeiro momento em que se mostra, em ato, que interpretar um sonho exige tempo, rigor e disposição para sustentar aquilo que ainda não encontrou forma estável na consciência.


FAQ — O sonho de Irma


1 - O que torna o sonho de Irma tão importante para a psicanálise?

Porque é o primeiro sonho interpretado de forma detalhada por Freud, permitindo acompanhar, passo a passo, o funcionamento do método da associação livre e a noção de realização de desejo em sua formulação inicial.


2 - O sonho de Irma confirma que todo sonho realiza um desejo?

Neste momento da obra, Freud sustenta essa hipótese. A análise do sonho de Irma mostra como um desejo específico — ligado à culpa e à responsabilidade — organiza o material onírico, sem que isso implique uma satisfação consciente ou prazerosa.


3 - Por que Freud analisa o sonho frase a frase?

Porque o sentido não está no sonho como um todo, mas se constrói no percurso associativo. A fragmentação permite que cada elemento convoque suas próprias cadeias de pensamento, sem antecipar conclusões.


4 - O que esse sonho ensina para a clínica hoje?

Que interpretar não é decifrar rapidamente nem impor um significado, mas sustentar um trabalho paciente de aproximação do desejo e dos afetos implicados, respeitando o tempo e as resistências de quem sonha.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 2.


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Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Atende adolescentes, adultos e casais em consultório particular, com atendimento presencial em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. Participa de grupos de estudos voltados à psicanálise contemporânea. Interessa-se por temáticas como depressão, luto, repetição e as formas atuais de mal-estar. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes de 2022.   

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