Interpretação dos sonhos em Freud: introdução ao método
- Jéssica Domingues
- 14 de jan.
- 6 min de leitura
Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos”
A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos
Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.
Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.
Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.
Capítulo 2 - O método da interpretação dos sonhos: a análise de uma amostra onírica
Há sonhos que não se resolvem ao despertar.Eles permanecem como um resto: uma imagem que retorna, um mal-estar difuso, uma cena que não se deixa esquecer. Não porque saibamos explicá-los, mas porque algo neles resiste à explicação.
Diante disso, é comum tentar traduzir. Procurar uma equivalência, um significado possível, uma frase que encerre a estranheza. Como se o sonho fosse uma carta escrita em código — e bastasse encontrar o dicionário certo para restituí-lo à ordem.
Freud inicia o segundo capítulo de A Interpretação dos Sonhos interrogando justamente esse gesto. Seu ponto de partida é simples: os sonhos são passíveis de interpretação. O sentido do sonho não se revela como mensagem transparente; ele se constrói no trabalho de interpretação.
Essa posição coloca Freud em oposição direta à teoria dominante de sua época, que tratava o sonho como fenômeno somático: um efeito do corpo adormecido que deixaria resíduos no aparelho mental. Se o sonho fosse apenas isso, não haveria o que escutar. O sonho seria ruído.
Freud recusa essa redução. O sonho é um ato mental. Algo que se produz, que opera, que tem efeitos. Mesmo quando parece absurdo ou desconexo, ele não é neutro.
Dois atalhos na interpretação dos sonhos — e por que Freud os recusa
Freud reconhece que a interpretação dos sonhos nunca deixou de existir. Mas observa que ela costumava se organizar em dois caminhos recorrentes.
O primeiro é o método simbólico, que toma o sonho como um todo e o substitui por outro conteúdo considerado equivalente. O exemplo clássico, e que Freud trás, é o sonho do Faraó, interpretado por José: a cena onírica é lida como uma profecia, traduzível de uma só vez.
O segundo caminho é o da decifração: o sonho como criptografia. Cada elemento corresponderia a um significado fixo, consultável em um código. Aqui, interpretar é reconhecer sinais e recompô-los.
Ambos os métodos oferecem algo tranquilizador: fechamento e universalização.
É justamente isso que Freud recusa. Um mesmo fragmento do sonho pode assumir sentidos diferentes em contextos diferentes. Não há garantia de código. O sonho não se presta a soluções universais.
A criptografia freudiana não promete uma chave totalizadora. Ela exige trabalho associativo — o que garante que a “chave”, se houver, esteja sempre ligada à singularidade de quem sonha, e nunca disponível como equivalência geral.
O método nasce do impasse clínico
Freud não chega ao sonho por especulação teórica, mas a partir de impasses encontrados no trabalho clínico. Ao lidar com formações psíquicas que resistiam às explicações diretas, ele se vê levado a sustentar um método que não antecipa soluções nem garante dissoluções imediatas.
É nesse contexto que os sonhos aparecem, trazidos pelos pacientes. Freud percebe então que o sonho pode ser inserido na cadeia psíquica que se constrói a partir de associações, retornos e deslocamentos — algo a ser percorrido.
O deslocamento aqui é fundamental. O sonho não é elevado à nobreza divinatória, nem reduzido a um subproduto do corpo. Ele é reconhecido como trabalho psíquico: uma produção que participa da vida mental e exige método para ser acompanhada.
Atenção, renúncia, tempo
O método que Freud propõe exige uma operação pouco valorizada: renunciar à pressa de julgar.
Refletir não é o mesmo que observar. A reflexão seleciona, descarta, organiza. A auto-observação, ao contrário, suspende a censura e acompanha o que emerge — mesmo quando parece irrelevante, constrangedor ou sem sentido.
Freud descreve um estado psíquico que lembra o limiar do adormecimento: quando a vigilância se afrouxa e surgem representações involuntárias. Mas aqui trata de um gesto deliberado: sustentar a atenção sem decidir cedo demais.
Justamente porque não sabemos de antemão o que fará elo.
O sonho não se lê em bloco
Freud é categórico: o sonho não deve ser interpretado como um todo.
Quando perguntado pelo “significado do sonho”, o pensamento se cala. Mas quando o sonho é fragmentado, cada detalhe pode abrir uma cadeia própria. Não se trata de traduzir partes, mas de seguir caminhos.
O método se aproxima, apenas na aparência, da decifração. A diferença é decisiva: não há equivalências fixas. O mesmo fragmento pode conduzir a lugares distintos, conforme o contexto, a história, o momento.
O sonho se comporta menos como código e mais como tecido antigo: um fio puxado desloca o desenho inteiro.
Interpretar não é fechar
Este texto não ensina a interpretar sonhos no sentido corrente da expressão. Ele introduz uma posição.
Freud recusa tanto a leitura simbólica total quanto a decifração por códigos. Em seu lugar, propõe um método que exige tempo, atenção e disposição para sustentar a incompletude. O sonho guarda sentido, mas não oferece atalhos.
No próximo texto, Freud levará esse método ao limite ao analisar um sonho próprio — expondo não apenas uma técnica, mas o risco implicado em interpretá-la.
Por ora, fica o gesto inaugural: interpretar não é traduzir, mas acompanhar o trabalho do sonho sem antecipar seu fechamento.

FAQ — Interpretação dos sonhos em Freud
1. O que Freud quer dizer quando afirma que os sonhos podem ser interpretados?
Ao afirmar que os sonhos são passíveis de interpretação, Freud sustenta que eles possuem um sentido ligado a conteúdos inconscientes, portanto ocultos à consciência imediata. Interpretar, porém, não significa revelar esse sentido de forma direta ou transparente, mas reinscrever o sonho na cadeia da vida psíquica, acompanhando os deslocamentos e associações que o constituem.
2. Por que Freud critica os métodos simbólicos e os “livros de sonhos”?
Freud observa que tanto a interpretação simbólica global quanto os métodos de decifração por códigos fixos simplificam excessivamente o trabalho do sonho. O primeiro depende de intuição e não se sustenta como método; o segundo pressupõe equivalências universais que desconsideram a singularidade psíquica de quem sonha. Para Freud, não há garantias de que um mesmo elemento onírico tenha sempre o mesmo sentido.
3. O que diferencia o método de Freud na interpretação dos sonhos?
O método freudiano se baseia no trabalho associativo e na fragmentação do sonho, em vez de buscar um significado total ou imediato. Cada detalhe do sonho é tratado como ponto de partida para associações singulares, permitindo que o sentido se construa no percurso, e não como tradução prévia ou código fixo.
4. Por que a suspensão da crítica é importante na interpretação dos sonhos segundo Freud?
Freud distingue a reflexão — que julga, seleciona e descarta — da auto-observação necessária à interpretação dos sonhos. A suspensão temporária da crítica permite que pensamentos involuntários emerjam e sejam acompanhados, criando as condições para que conteúdos inconscientes encontrem vias de ligação e elaboração psíquica.
Referência:
Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 2.
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Sobre a Autora:
Jéssica Domingues é psicanalista com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Atende adolescentes, adultos e casais em consultório particular, com atendimento presencial em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. Participa de grupos de estudos voltados à psicanálise contemporânea. Interessa-se por temáticas como depressão, luto, repetição e as formas atuais de mal-estar. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes de 2022.
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