top of page
Atendimento online e presencial

Inscreva-se para receber os novos posts do blog

Instagram 

  • Instagram

Instagram 

  • Instagram

Instagram 

  • Instagram

O início da análise e a fantasia do analista ideal

  • Foto do escritor: Jéssica Domingues
    Jéssica Domingues
  • 19 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

O início da análise raramente acontece de forma direta. Antes de marcar a primeira sessão, muitas pessoas permanecem por um tempo nesse limiar: leem, observam, acompanham o trabalho de diferentes analistas, imaginam conversas possíveis — e, ainda assim, algo retém o gesto de atravessar.


Esse movimento costuma ser vivido como cautela ou discernimento. Mas, para quem considera iniciar uma análise pessoal, ele frequentemente revela uma ambivalência: há uma parte que deseja começar e outra que hesita. É nesse intervalo que se organiza a fantasia de um analista ideal.


O início da análise e a busca por garantias


O início da análise não se reduz a uma decisão prática, como quem organiza um compromisso na agenda. Ele implica uma tomada de posição diante da realidade e de seus limites. Freud lembrava que viver supõe decidir, repetidamente, entre ceder às exigências do mundo ou insistir nas próprias paixões — escolha que nunca se faz sem perda.


No início da análise, essa decisão reaparece de forma discreta. A busca por garantias funciona como um apoio imaginário: compara-se analistas, adia-se o contato, espera-se por uma certeza que, quando chega, nunca parece suficiente. Assim, mantém-se a ilusão de que seria possível controlar, antecipadamente, os efeitos de uma experiência que, por definição, não pode ser totalmente prevista.


Falar livremente não é um gesto neutro. O início da análise toca justamente no ponto em que nenhuma garantia é capaz de proteger inteiramente do que pode emergir.


lustração onírica em tons suaves no blog da psicanalista Jéssica Domingues, mostrando uma parede com várias janelas de formatos diferentes, algumas abertas e outras fechadas ou cobertas por cortinas, com luzes distintas atravessando cada uma, evocando escolhas, expectativas e o início da análise pessoal, em diálogo com o texto “O início da análise e a fantasia do analista ideal”.
Mil janelas abertas, paisagens aos montes — mas qual viagem foi feita?

A fantasia do analista ideal


Do ponto de vista psicanalítico, a fantasia pode organizar o medo e amortecer a angústia diante do desconhecido, oferecendo alguma orientação provisória frente ao que ainda não se sabe.


Essa fantasia se apoia em questões singulares de cada pessoa. Em alguns casos, pode estar em torno da suavidade ou do acolhimento; em outros, da firmeza, do confronto, da possibilidade de discutir ou até brigar. Para algumas pessoas, a expectativa recai sobre alguém que ensine, explique ou organize; para outras, sobre alguém que escute sem orientar.


Há ainda fantasias que se apoiam em características mais concretas: o gênero do analista, sua idade, sua aparência, sua pertença a determinados grupos. Pessoas que buscam analistas do mesmo gênero por acreditarem que isso favorece compreensão e segurança; outras que procuram analistas, mobilizadas por fantasias inconscientes de sedução, reconhecimento ou conflito; pessoas pertencentes a minorias que buscam analistas com experiências semelhantes como forma de proteção.


Essas escolhas não são erros a serem corrigidos nem critérios puramente racionais. Elas funcionam como pontos de ancoragem imaginária, a partir dos quais algo da transferência começa a se esboçar. Ainda que não constituam a transferência em ato, revelam conflitos, expectativas e marcas inconscientes que atravessam o próprio movimento de buscar um analista.


Quando a busca pelo analista ideal se torna resistência ao início da análise


É importante distinguir dois planos que nem sempre coincidem. Uma coisa é a existência dessas fantasias; outra é o uso que se faz delas. Em alguns casos, a busca pelo analista ideal deixa de ser um momento do percurso e passa a funcionar como um modo de adiamento.


A pesquisa interminável, a espera pela combinação perfeita, a sensação persistente de que “ainda não é o momento” podem operar como formas sutis de resistência. Freud mostrou que a resistência nem sempre se apresenta como recusa aberta; muitas vezes, ela se disfarça de zelo, prudência ou excesso de cuidado.


Nesses casos, a fantasia não apenas protege da angústia, mas mantém o início da análise suspenso — como se permanecer na soleira, diante da porta, fosse mais seguro do que atravessá-la.


“Como escolher um psicólogo?” — e os limites dos critérios prontos

Não é raro que, nesse momento, surja a pergunta: como escolher um psicólogo? ou como escolher um psicanalista? A internet oferece listas, critérios e comparações, como se fosse possível encontrar uma fórmula segura para essa escolha.


Mas não há checklist capaz de eliminar o risco implicado no encontro. A escolha de um analista passa, inevitavelmente, pelas fantasias, expectativas e temores de quem busca — e isso não é um problema a ser evitado, mas parte do processo.


O que revela a potência do trabalho analítico não é a adequação prévia a um conjunto de critérios, mas o encontro com um profissional corporificado, no qual essas fantasias podem aparecer, ser ditas e, pouco a pouco, trabalhadas.


Transferência e trabalho clínico a partir do início da análise


Quando o enquadre analítico se estabelece, essas fantasias não são descartadas nem desautorizadas. Elas entram em cena como material de trabalho. Na clínica, aparecem na fala, no ritmo, nas pausas, nos impasses — e podem ser elaboradas ao longo do processo analítico.


A análise não exige que alguém chegue “sem fantasias”, mas que possa, pouco a pouco, falar delas e se implicar no que elas revelam.


O que está em jogo no início da análise pessoal


O início da análise pessoal não acontece quando todas as dúvidas cessam, nem quando se alcança uma certeza plena. Ele exige uma renúncia mais sutil: a de que exista alguém capaz de garantir, de antemão, o sentido da experiência.


A psicanálise não oferece um roteiro pronto nem promete adaptação perfeita. Ela se constrói passo a passo, a partir do que falha, do que escapa, do que não se ajusta aos ideais prévios. Buscar o analista ideal pode fazer parte do caminho, desde que essa busca não se transforme em um modo de permanecer fora da própria experiência.

Em algum momento, é preciso aceitar que toda escolha carrega uma zona de indeterminação. O início da análise não é certeza — é autorização.


Perguntas frequentes sobre o início da análise


1 - O que caracteriza o início da análise na psicanálise?

O início da análise não se define apenas pela marcação da primeira sessão, mas pelo momento em que alguém se autoriza a sustentar uma pergunta sobre si sem exigir garantias prévias. A sessão inaugural estabelece um enquadre, mas o início da análise envolve uma decisão psíquica que se constrói no tempo.


2 - Como escolher um psicanalista?

A escolha de um psicanalista não obedece a fórmulas seguras nem a critérios universais. Ela passa, inevitavelmente, por expectativas, fantasias e experiências anteriores de cada pessoa. O que sustenta o trabalho analítico não é a adequação prévia a um ideal, mas o encontro com um profissional corporificado, no qual essas expectativas possam ser trabalhadas.


3 - O que está em jogo na busca pelo analista ideal?

A busca pelo analista ideal expressa tentativas de antecipar e controlar os efeitos do encontro analítico. Essa fantasia pode se organizar em torno de acolhimento, confronto, ensino, reconhecimento ou proteção, conforme a história de cada pessoa. Mais do que um erro, ela revela conflitos e expectativas inconscientes que atravessam o próprio movimento de buscar um analista.


4 - Quando essa busca pode funcionar como resistência ao início da análise?

A busca passa a funcionar como resistência quando se transforma em adiamento constante, pesquisa interminável ou exigência de garantias impossíveis. Nesses casos, a própria procura mantém o início da análise suspenso, mesmo que isso não seja percebido de forma consciente.


5 - É preciso ter certeza para iniciar uma análise pessoal?

A análise pessoal não começa a partir da certeza, mas da autorização. Iniciar uma análise implica aceitar dúvidas, ambivalências e zonas de não saber. A exigência de certeza absoluta costuma funcionar mais como defesa diante do desconhecido do que como condição real para o início do trabalho.


Referências

  • Freud, S. (1911). Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico.

  • Freud, S. (1913). Sobre o início do tratamento.

  • Freud, S. (1915). Os instintos e seus destinos.

  • Freud, S. (1926). A questão da análise leiga, capítulo III.


Continue lendo:

 Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Atende adolescentes, adultos e casais em consultório particular, com atendimento presencial em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. Participa de grupos de estudos voltados à psicanálise contemporânea. Interessa-se por temáticas como depressão, luto, repetição e as formas atuais de mal-estar. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes de 2022.  

 Se esse texto te deixou pensando, e quiser conversar sobre um possível início, você pode agendar uma sessão ou me escrever.

Comentários


Este conteúdo é protegido por direitos autorais. A reprodução, tradução ou adaptação não autorizada, total ou parcial, é proibida. Se desejar compartilhar, cite a fonte com o link original.

whatsapp_edited.png
bottom of page