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Sonho de morte de pessoas queridas: Freud rascunhando Édipo

  • Foto do escritor: Jéssica Domingues
    Jéssica Domingues
  • há 3 horas
  • 7 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 6 𝛽 - Sonhos típicos, morte de pessoas queridas


Ilustração abstrata em aquarela com três manchas de cor conectadas por linhas delicadas em atmosfera onírica, representando tensões psíquicas e vínculos simbólicos — imagem do texto “Sonho de morte de pessoas queridas: Freud rascunhando Édipo”, do blog da psicanalista Jéssica Domingues.
Alguns sonhos perturbam porque lembram que o amor nunca foi simples.

Freud discute o sonho de morte de pessoas queridas no capítulo sobre os sonhos típicos de A Interpretação dos Sonhos. É nesse momento que aparece um dos primeiros esboços daquilo que, anos depois, se tornaria conhecido como o complexo de Édipo. Ao analisar sonhos em que morrem pais, irmãos ou filhos, Freud percebe que esses sonhos frequentemente tocam algo muito mais antigo: os conflitos afetivos da infância.


Em texto anterior, ao tratar dos sonhos típicos, vimos que Freud chama assim certos sonhos que aparecem de forma semelhante em muitas pessoas e que, por isso, colocam uma questão particular à técnica de interpretação. Entre esses sonhos, um dos mais conhecidos é o sonho embaraçoso de nudez.


Freud passa então a outro tipo igualmente perturbador: o sonho em que morre alguém amado — um dos pais, um irmão, uma irmã ou um filho.


O impacto desse sonho costuma ultrapassar a própria cena sonhada. Muitas pessoas acordam com culpa, estranhamento ou horror, como se o sonho dissesse algo intolerável sobre seus afetos. Como posso sonhar com a morte de alguém que amo?


Freud não evita essa pergunta. Seu gesto não é moralizar nem transformar o sonho em uma confissão direta. Ao contrário, ele mostra que a vida psíquica não coincide plenamente com a imagem que temos de nós mesmos. Amar alguém não impede que, em certas camadas da experiência psíquica, apareçam rivalidade, ciúme ou desejo de exclusividade.


O sonho de morte de pessoas queridas e a distinção proposta por Freud


Freud começa diferenciando dois grupos de sonhos.


De um lado, estão aqueles em que a morte de alguém querido aparece sem tristeza correspondente. De outro, estão os sonhos em que o sonhador sofre intensamente, podendo até chorar durante o próprio sonho.


Essa distinção é importante. No primeiro caso, segundo Freud, não estamos diante de um sonho típico. Já no segundo caso, a cena merece atenção especial, porque ele revela justamente a complexidade afetiva envolvida nesses sonhos.


O ponto decisivo é este: para Freud, esses sonhos não provam que alguém deseje hoje, conscientemente, a morte de quem ama. O que eles indicam é outra coisa — a persistência de desejos infantis recalcados, desejos antigos que não desapareceram simplesmente porque a vida adulta os tornou inaceitáveis.


Aqui, a leitura freudiana se torna incômoda justamente porque recusa a imagem idealizada dos afetos familiares. O sonho não surge para confirmar a pureza do amor, mas para lembrar que os vínculos mais íntimos também podem conter conflito.


Irmãos, ciúme e o egoísmo infantil


Ao examinar os sonhos com morte de irmãos e irmãs, Freud retoma algo que a observação cotidiana frequentemente suaviza: a infância não é um território de harmonia espontânea.


A chegada de um irmão pode ser vivida como perda de lugar, perda de atenção ou perda de exclusividade. A criança pequena ainda não dispõe dos recursos simbólicos e morais que, mais tarde, ajudarão a conter ou transformar esses impulsos. Por isso, rivalidade e hostilidade podem aparecer ali de maneira muito mais crua.


Esse ponto continua sendo clinicamente reconhecível. Muitas pessoas lembram, retrospectivamente, do ciúme de um irmão mais novo, da sensação de ter sido deixado de lado ou da irritação diante da atenção dada a outra criança.


Freud não afirma que toda relação fraterna se reduz a isso. O que ele propõe é algo mais preciso e mais desconfortável: a ambivalência aparece cedo, e a vivência de amor na atualidade não apaga completamente as marcas desses conflitos.


Talvez seja justamente por isso que certos sonhos perturbem tanto. Eles parecem fazer retornar algo da infância que a vida adulta preferiria considerar ultrapassado.


Os pais, a rivalidade amorosa e a primeira aparição do Édipo


É quando Freud passa aos sonhos em que morrem pai ou mãe que o texto ganha uma importância especial.


Ele observa uma tendência recorrente: homens relatam com mais frequência sonhos em que o pai morre, enquanto mulheres relatam sonhos em que a mãe morre. Freud propõe então que, desde cedo, pode surgir uma preferência amorosa por um dos pais, acompanhada de rivalidade em relação ao outro.


Ainda não estamos diante da formulação posterior do complexo de Édipo tal como ele será desenvolvido nos anos seguintes, mas seu embrião já aparece aqui.


Em outras palavras, este trecho marca uma das primeiras aparições decisivas da constelação edipiana na obra freudiana — aquilo que, posteriormente, em certas formulações, será descrito como Édipo simples:o menino voltado para a mãe e rivalizando com o pai; a menina voltada para o pai e rivalizando com a mãe.


É importante lembrar que a teoria freudiana posterior reconhecerá arranjos mais complexos e múltiplas variações dessa dinâmica.


Freud também conecta essa problemática à tragédia Édipo Rei, de Sófocles. Segundo ele, a força duradoura dessa história vem do fato de tocar algo profundamente humano: a presença de desejo, rivalidade e culpa nos vínculos mais fundamentais da vida.


Em nota, Freud aproxima essa reflexão de outro de seus textos: Totem e Tabu (1913), onde o tema da relação com o pai e da interdição reaparece em escala cultural.


Por que esses sonhos provocam tanta angústia


O desconforto provocado por esses sonhos não vem apenas da cena sonhada, mas do modo como ela parece contrariar a imagem que temos de nós mesmos.


Alguém sonha com a morte do pai e acorda angustiado. Outra pessoa sonha com a morte da mãe e passa o dia tentando afastar a impressão terrível deixada pelo sonho. Uma terceira sonha com a perda de um irmão e se sente culpada.


A contribuição clínica de Freud está justamente em deslocar a pergunta. O sonho não precisa ser entendido como vontade literal nem como presságio.


Ele pode ser escutado como uma formação psíquica em que aparecem, de forma distorcida e inquietante, afetos contraditórios que fazem parte da história dos vínculos.


Amar alguém e, ao mesmo tempo, ressentir-se dele. Precisar de alguém e também desejar afastá-lo. Sentir gratidão e irritação ao mesmo tempo. Ao escrever sobre o sonho de morte de pessoas queridas, Freud tenta descrever um fato fundamental da vida psíquica: amor e hostilidade podem coexistir, especialmente nos vínculos mais antigos e intensos.


Por isso esse trecho ocupa um lugar importante em A Interpretação dos Sonhos. Ao examinar esses sonhos típicos, Freud se aproxima de uma das articulações centrais da psicanálise: o entrelaçamento entre desejo, rivalidade, culpa e interdição.


Os sonhos não resolvem essa tensão. Mas às vezes permitem que ela apareça de maneira inesperada.


FAQ - Sonhos típicos de morte de pessoas queridas


1. O que Freud chama de sonho de morte de pessoas queridas?

Freud descreve como sonho de morte de pessoas queridas aqueles sonhos em que alguém imagina a morte de um parente ou de uma pessoa próxima. Esses sonhos pertencem ao grupo dos chamados sonhos típicos, isto é, sonhos que aparecem com relativa frequência em diferentes pessoas e que, por isso, colocam questões particulares à interpretação.


2. Por que esses sonhos costumam provocar tanta culpa?

O desconforto surge porque o conteúdo do sonho parece contradizer os sentimentos conscientes do sonhador. Muitas pessoas acordam com a impressão de que o sonho revela algo moralmente inaceitável. A leitura freudiana, porém, desloca essa interpretação: em vez de indicar um desejo atual e consciente, o sonho pode mobilizar conflitos afetivos mais antigos, frequentemente ligados às experiências da infância.


3. Como Freud relaciona esses sonhos aos conflitos da infância?

Ao examinar esses sonhos, Freud observa que os vínculos infantis podem incluir sentimentos ambivalentes. Amor, dependência, rivalidade e ciúme podem coexistir nos primeiros laços familiares. Esses afetos nem sempre permanecem visíveis na vida adulta, mas podem reaparecer em formações do inconsciente, como os sonhos.


4. Qual a relação entre esses sonhos e o complexo de Édipo?

Ao analisar sonhos em que morrem pai ou mãe, Freud observa uma tendência significativa: o genitor do mesmo sexo frequentemente aparece como rival. Essa observação aponta para a dinâmica que mais tarde será desenvolvida como complexo de Édipo. Nesse momento da obra, porém, trata-se ainda de um esboço dessa problemática, que Freud começava a reconhecer.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 6-𝛽

 

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Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Atende adolescentes, adultos e casais em consultório particular, com atendimento presencial em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. Participa de grupos de estudos voltados à psicanálise contemporânea. Interessa-se por temáticas como depressão, luto, repetição e as formas atuais de mal-estar. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes de 2022.   

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