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Estímulos corporais internos nos sonhos: quando o corpo fala segundo Freud

  • Foto do escritor: Jéssica Domingues
    Jéssica Domingues
  • 12 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos”

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 1 - C 3 - Estímulo corporal orgânico e interno


Mesmo em repouso, o corpo sonha — e, ao sonhar, revela o que sente.

Ilustração aquarelada e onírica do blog da psicanalista Jéssica Domingues para o texto Estímulos corporais internos nos sonhos: quando o corpo fala segundo Freud. A imagem em tons azul-violeta e dourado mostra véus translúcidos e ramificações abstratas que emergem e se dissolvem no fundo, evocando o corpo que sonha a partir de dentro. Estilo etéreo e poético, continuidade da série A Interpretação dos Sonhos.
E se o corpo também sonhasse — e o sonho fosse apenas o modo de escutá-lo?
Antes de qualquer palavra, o corpo fala — pulsa, arde, respira. E o sonho escuta.

Neste trecho de A Interpretação dos Sonhos, Freud aprofunda sua investigação sobre as fontes do sonho, voltando-se agora para o corpo orgânico. Depois de examinar as excitações sensoriais externas e internas subjetivas, ele pergunta: seria possível que os próprios órgãos do corpo, com seus ritmos e perturbações, dessem origem às imagens oníricas?

É nesse ponto que surgem os estímulos corporais internos nos sonhos, uma das vias mais intrigantes pelas quais o corpo participa do trabalho onírico.


Os estímulos corporais internos nos sonhos


Freud observa que, embora os órgãos internos pareçam silenciosos quando saudáveis, eles se tornam fontes de sensações perceptíveis — e muitas vezes penosas — em estados de excitação ou de doença. Durante o sono, a mente, afastada do mundo externo, volta-se para dentro e passa a captar essas excitações orgânicas.

Ele menciona tanto médicos da Antiguidade quanto de sua época (como Simon e Tissié), que viam nos sonhos um modo de o corpo manifestar desequilíbrios internos.

Desde Aristóteles e os oráculos gregos, acreditava-se que certos sonhos poderiam pressagiar doenças — não por profecia, mas porque o corpo, através do sonho, anunciava o que ainda não havia chegado à consciência. Freud observa que, durante o sono, ocorre um rebaixamento da consciência e uma maior percepção dos estímulos internos, o que explicaria esse fenômeno sem recorrer à ideia de adivinhação.


Freud toma esses exemplos não como curiosidades místicas, mas como evidência de que o corpo é uma fonte legítima de estímulos para o sonho.


A cenestesia e o corpo saudável que sonha


Freud propõe então um passo adiante: se o corpo enfermo pode produzir sonhos, também o corpo saudável pode. Durante o sono, nossa atenção se desvia do mundo e se volta para uma sensação geral de origem orgânica — o que ele chama de cenestesia: a percepção difusa e constante do estado geral do corpo.

À noite, essa sensibilidade interna se intensifica e se transforma na mais copiosa das fontes oníricas.

Mesmo em repouso, o corpo fornece estímulos sutis: o batimento cardíaco, a respiração, o movimento dos órgãos internos. O sonho não é uma resposta direta a essas sensações, mas uma figuração simbólica — um modo de torná-las imagem.


Assim, os estímulos corporais internos nos sonhos mostram que o corpo participa silenciosamente da atividade psíquica, oferecendo material que o inconsciente organiza e transforma.


O corpo como fonte do sonho


O filósofo Schopenhauer já havia sugerido que, quando cessam as impressões do mundo externo, as sensações vindas do interior do organismo ganham força. Durante o sono, o intelecto reage a esses estímulos internos transformando-os em formas visuais e temporais — em sonhos.


Freud retoma essa intuição e a amplia com o psiquiatra Krauss, que descreve o processo como uma “transubstanciação” das sensações em imagens oníricas. Em outras palavras: o corpo induz, o sonho figura.


O corpo é, portanto, fonte — nunca explicação única. Ele fornece o material bruto; o inconsciente sistematiza em sua própria lógica, transformando sensações em cenas.


Sonhos típicos e hipóteses fisiológicas


Freud encerra este trecho comentando alguns dos chamados “sonhos populares”, experiências recorrentes em diferentes pessoas e culturas. Ele apresenta hipóteses fisiológicas curiosas para cada um:


  • Sonhar que se está nu ou descoberto: o corpo percebe que os lençóis se afastaram.

  • Sonhar que os dentes caem: estímulos dentais ou tensão mandibular.

  • Sonhar que voa : variações nos lobos pulmonares, sensação de flutuar com a respiração.

  • Sonhar que cai: movimentos corporais súbitos ou alterações de pressão cutânea.

Freud não toma essas explicações como definitivas — afinal, na psicanálise sempre tratamos do singular —, mas reconhece que elas mostram como o corpo oferece material que o sonho reorganiza à sua maneira.

Escutar-se — de corpo e alma

“O corpo induz, o sonho figura e escutar-se — de corpo e alma — traduz.”

Na clínica, essa dimensão corporal do sonho convida à escuta do que se move antes das palavras. Sonhar também é, em certo sentido, escutar as mensagens do próprio corpo.


Perguntas frequentes sobre os estímulos corporais internos e os sonhos (FAQ)


1. O que Freud chama de estímulos corporais internos?

São sensações vindas dos órgãos internos — como o coração, pulmões ou estômago — que, durante o sono, atuam como fontes de estímulo para o sonho.


2. O que Freud diz sobre sonhos que pressagiam doenças?

Freud menciona relatos, desde Aristóteles até médicos de sua época, em que sonhos antecederam diagnósticos físicos. Ele entende que, durante o sono, há um rebaixamento da consciência e maior percepção dos estímulos internos, o que permite ao sonho registrar alterações orgânicas antes de se tornarem conscientes.


3. Quais são os sonhos populares explicados neste capítulo de A Interpretação dos Sonhos?

Freud discute os sonhos de cair, perder os dentes, voar e estar nu, explorando possíveis origens corporais e o modo como o inconsciente transforma essas sensações em imagens.


4. O que é a cenestesia?

É a percepção difusa e constante de origem orgânica, que se torna mais intensa durante o sono e pode gerar material para o sonho.


5. O que aprendemos clinicamente com essa teoria?

Que o corpo é uma das fontes do sonho, mas habitualmente não é sua causa única. A escuta analítica considera como o inconsciente figura, em imagens, o que o corpo sente e o que a consciência desconhece.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 1-c2.

 

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Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Atende adolescentes e adultos em consultório particular, com atendimento presencial em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. Participa de grupos de estudos voltados à psicanálise contemporânea. Interessa-se por temáticas como depressão, luto, repetição e as formas atuais de mal-estar. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes de 2022.  

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