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Luzes que vêm de dentro: as excitações sensoriais internas no sonho segundo Freud

  • Foto do escritor: Jéssica Domingues
    Jéssica Domingues
  • 5 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos”

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 1 - C 2 - Excitações Sensoriais Internas (subjetivas)

Mesmo de olhos fechados, ainda vemos. Há luzes que não vêm do mundo, mas da própria visão — imagens que o sonho recolhe e faz dançar.

Freud descreve as excitações sensoriais internas como sensações visuais e auditivas que surgem dentro dos sentidos e que o sonho transforma em imagens.


Neste ponto de sua investigação, Freud ainda descreve as possíveis fontes das imagens oníricas, antes de formular sua teoria geral sobre o sonho. Depois de examinar os estímulos que chegam do mundo externo, ele passa a se perguntar: poderiam os sentidos, em repouso, serem eles mesmos a origem das imagens do sonho?


Ilustração aquarelada e onírica do blog da psicanalista Jéssica Domingues para o texto Luzes que vêm de dentro: as excitações sensoriais internas no sonho segundo Freud. A imagem mostra um fundo azul profundo com tons de violeta e dourado, onde pequenas luzes parecem surgir de dentro da própria cena. Atmosfera etérea e silenciosa, simbolizando as sensações internas que o sonho transforma em imagem.
O que ainda vemos quando tudo ao redor se apaga?

As excitações sensoriais internas no sonho


Durante o sono, os órgãos sensoriais não estão inteiramente adormecidos. Mesmo sem estímulos do ambiente, eles continuam a produzir pequenas excitações internas, sutis e autônomas — brilhos na retina, zumbidos nos ouvidos, vibrações luminosas ou sonoras que não vêm de fora.


Essas sensações são chamadas por Freud de excitações sensoriais internas (subjetivas): percepções geradas nos próprios órgãos dos sentidos, e não por causas externas ou fisiológicas. Elas se diferenciam das excitações corporais orgânicas, que Freud abordará mais adiante.


Freud retoma aqui observações de Wundt, Müller, Maury e Ladd:

  • As sensações visuais subjetivas — como a poeira luminosa percebida com os olhos fechados — podem servir de ponto de partida para as imagens do sonho.

  • As alucinações hipnagógicas, fenômenos do limiar entre vigília e sono, revelam esse mesmo mecanismo: o olho vê luzes internas, o ouvido escuta ecos sem fonte, e o sonho aproveita esse material sensorial para compor suas cenas.

O sonho faz das faíscas luminosas um bando de pássaros; dos zumbidos, uma música; das sombras, um cenário inteiro.

Essas impressões não dependem do acaso do mundo externo: estão sempre disponíveis — uma espécie de percepção sem objeto, sensação sem causa aparente. Essas excitações sensoriais internas no sonho funcionam como um material constante para a produção onírica, disponível mesmo no repouso dos sentidos.


Entre o sensorial e o psíquico


Freud reconhece que essas excitações internas não bastam para explicar o sonho, mas nelas se encontra uma via de passagem entre o sensorial e o psíquico. São restos do funcionamento perceptivo que o inconsciente figura em imagens, transformando o sensível em cena.


Mesmo o repouso dos sentidos guarda um rumor, e o sonho o escuta.

O campo do sensorial interno subjetivo é, portanto, um intermediário: não é o mundo, nem ainda o corpo orgânico; é a parte mais íntima da percepção, aquela que segue ativa mesmo no escuro.


A escuta clínica do sensível


Clinicamente, reconhecer o papel das excitações sensoriais internas no sonho evita reduzirmos certos sonhos a causas externas ou orgânicas. O sonho se alimenta também das percepções internas, do que os sentidos produzem em silêncio — figura o sensível em imagens.


O sonho encontra aí um de seus pontos de partida.

Sonhar é, então, ver o invisível que habita os próprios sentidos — aquilo que o olhar percebe mesmo quando o mundo silencia.


Perguntas frequentes sobre as excitações sensoriais internas no sonho (FAQ)


1. O que Freud chama de excitações sensoriais internas (subjetivas)?

São sensações geradas dentro dos próprios órgãos dos sentidos — como luzes vistas com os olhos fechados ou zumbidos no ouvido — sem causa externa.


2. Qual a diferença entre estímulo interno subjetivo e estímulo corporal orgânico?

As excitações internas subjetivas são sensações auto-geradas pelos órgãos dos sentidos (por exemplo, luz idiorretínica, zumbido), enquanto os estímulos corporais orgânicos provêm de processos fisiológicos (dor, fome, etc), tema do item seguinte.


3. Que exemplos Freud cita para ilustrar essas excitações internas?

Ele menciona observações de Wundt, Müller, Maury e Ladd sobre alucinações hipnagógicas — imagens e sons que aparecem entre a vigília e o sono e são depois reaproveitadas pelo sonho.


4. O que essa hipótese revela sobre o funcionamento do sonho?

Mostra que o sonho não se produz sem material: ele utiliza as excitações sensoriais internas como matéria-prima para compor suas cenas, figurando o sensível em imagens.


5. O que aprendemos clinicamente com isso?

Que o sonho se alimenta também das percepções internas e dos restos sensoriais da experiência. Escutá-lo é reconhecer como cada pessoa transforma o sentir em figura.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 1-c2.

 

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Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Atende adolescentes e adultos em consultório particular, com atendimento presencial em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. Participa de grupos de estudos voltados à psicanálise contemporânea. Interessa-se por temáticas como depressão, luto, repetição e as formas atuais de mal-estar. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes de 2022.  

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