Figurabilidade em Freud: a poiesis do pensamento onírico
- Jéssica Domingues
- 6 de mai.
- 5 min de leitura
Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos”
A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos
Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.
Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.
Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.
Capítulo 6 d - A consideração pela figurabilidade
Na formação dos sonhos, os pensamentos que os sustentam não podem aparecer tal como se organizam. Não basta que estejam ligados, nem que tenham sido condensados ou deslocados. Para que entrem no sonho, precisam ainda tornar-se representáveis.
É nesse ponto que Sigmund Freud introduz a consideração à figurabilidade: aquilo que pode ou não pode tomar forma no material visual próprio do sonho .

A exigência de forma
Os pensamentos do sonho são, muitas vezes, complexos, articulados, por vezes abstratos. Mas no sonho para além do verbo, há também outra forma.
Entre os diversos pensamentos possíveis, aqueles que admitem uma apresentação mais concreta — sobretudo visual — são favorecidos. Não se trata de uma escolha arbitrária, mas de uma condição: o sonho trabalha com aquilo que consegue figurar.
O que não se deixa representar não desaparece, mas precisa encontrar outro modo de aparecer.
Do abstrato ao pictórico
Freud observa que, no trabalho do sonho, expressões abstratas tendem a ser substituídas por formas mais concretas, próximas da imagem. Uma ideia vaga, uma formulação conceitual, uma relação complexa — tudo isso pode ser vertido em uma cena, um objeto, um gesto. A transformação não é decorativa. Ela responde a uma exigência interna do próprio processo.
Uma imagem pode ser inserida em uma situação, pode coexistir com outras, pode participar de condensações e deslocamentos. Uma expressão abstrata, por outro lado, oferece resistência.
As condições da forma
Essa passagem não ocorre sem consequências.
Ao transformar o pensamento em imagem, o sonho não preserva sua forma original. As relações que organizavam o pensamento precisam ser reconfiguradas. Aquilo que era ligação lógica pode tornar-se composição; o que era articulação discursiva torna-se disposição no espaço e outras configurações possíveis.
A forma não é um invólucro. Ela intervém no próprio conteúdo. É nesse sentido que a figurabilidade participa ativamente do trabalho do sonho: não apenas traduz, mas re-apresenta em uma nova configuração.
Palavras, ambiguidade e condensação
Freud chama atenção para o papel das palavras nesse processo. Por serem pontos de convergência de múltiplas associações, elas se prestam à ambiguidade. Um mesmo termo pode sustentar mais de um sentido, e essa duplicidade é explorada pelo sonho.
Trocadilhos, expressões consagradas, jogos de linguagem — tudo isso pode ser mobilizado para permitir que um pensamento encontre forma. Em certos casos, a transformação não se dá apenas do abstrato para o pictórico, mas de uma expressão verbal para outra, mais rica em associações.
A figurabilidade, aqui, não se limita à imagem visual. Ela se apoia também na plasticidade da linguagem.
Entre forma e disfarce
A transformação exigida pela figurabilidade não é neutra.
Ao buscar formas mais representáveis, o sonho encontra também caminhos para o disfarce. A substituição de uma expressão direta por uma imagem ou por uma formulação ambígua pode atenuar aquilo que, de outro modo, encontraria resistência.
Nesse ponto, a figurabilidade articula-se com a censura e com a condensação. Uma forma mais adequada à representação pode, ao mesmo tempo, facilitar a reunião de elementos distintos e obscurecer aquilo que se mostra.
O que aparece, portanto, não é apenas aquilo que pôde ser figurado, mas aquilo que pôde sê-lo sob determinadas condições.
A forma que permite aparecer
Se a condensação reúne, e o deslocamento redistribui, a figurabilidade seleciona e transforma. Ela introduz uma exigência decisiva: a de que o pensamento encontre uma forma compatível com o material do sonho. Aquilo que não se ajusta a essa exigência precisa ser modificado, contornado ou substituído.
O sonho não diz tudo o que pensa —diz o que pode ser apresentado.
Talvez seja nesse ponto que a figurabilidade se aproxima do que, no título, chamamos de poiesis.
Não como criação livre, mas como trabalho de forma.
O pensamento onírico não aparece simplesmente: ele se refaz ao tomar forma. E, nesse movimento, não apenas se mostra — transforma-se.
FAQ - Figurabilidade em Freud
1. O que Freud chama de figurabilidade no sonho?
A figurabilidade em Freud se refere à exigência de que os pensamentos do sonho encontrem uma forma que possa ser representada, sobretudo em imagens. Nem todo pensamento pode aparecer diretamente: é preciso que ele se torne figurável.
2. Por que o sonho transforma ideias abstratas em imagens?
Porque as ideias abstratas não se prestam facilmente à representação no material do sonho. Ao se transformarem em imagens, elas podem ser inseridas em cenas, combinadas com outros elementos e participar do trabalho do sonho.
3. O que acontece com um pensamento que não pode ser representado?
Ele não desaparece, mas precisa encontrar outro modo de aparecer. Isso pode ocorrer por meio de substituições, transformações ou associações que permitam sua apresentação de forma indireta.
4. A figurabilidade altera o conteúdo do sonho?
Ao exigir uma forma representável, a figurabilidade não apenas apresenta o pensamento, mas o modifica. As relações que organizavam o pensamento precisam ser reconfiguradas para que ele possa aparecer no sonho.
5. Qual o papel das palavras na formação dos sonhos?
As palavras, por concentrarem múltiplas associações, permitem jogos de sentido, ambiguidades e deslocamentos. Em certos casos, elas oferecem ao sonho caminhos para tornar representável aquilo que não poderia aparecer de forma direta.
Referência:
Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 6-d.
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Sobre a Autora:
Jéssica Domingues é psicanalista, com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF), atende adolescentes e adultos em consultório particular, com atendimentos presenciais em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes (2022). Seu trabalho se orienta pela escuta das formas contemporâneas de sofrimento psíquico, em que se articulam temas como repetição, luto, depressão e os impasses da vida atual — por vezes marcados por experiências de atuação, impulsividade e destrutividade.
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