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‘Nem sonhando’: jogos de palavras na interpretação dos sonhos de Freud

  • Foto do escritor: Jéssica Domingues
    Jéssica Domingues
  • há 12 horas
  • 6 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 6 F - Exemplos - cálculos e falas no sonho


Uma frase deslocada, um trocadilho involuntário, uma expressão tomada ao pé da letra, um número aparentemente absurdo ou uma cena que desafia qualquer lógica narrativa. Muitas vezes, o estranhamento do sonho nasce justamente daí: da sensação de que as palavras perderam sua estabilidade habitual.


Em A Interpretação dos Sonhos, Freud dedica um momento inteiro de sua obra a mostrar que isso não acontece por acaso. Ao analisar exemplos clínicos e fragmentos oníricos, ele demonstra que o sonho trabalha intensamente com jogos de palavras nos sonhos, reorganizando palavras, sons e expressões segundo outras leis. O sonho não apenas “fala” algo: ele brinca com sons, ditos e ambiguidades.


Nesse ponto da obra, Freud leva adiante uma consequência importante de tudo o que já vinha desenvolvendo até então. Depois da condensação e do deslocamento, agora, ao aprofundar a figurabilidade, ele mostra que o trabalho do sonho também transforma a própria matéria verbal. As palavras deixam de funcionar apenas como veículos de significado e passam a operar como imagens, aproximações sonoras e fragmentos móveis.


Jogos de palavras nos sonhos e o trabalho do sonho


Ilustração do blog da psicanalista Jéssica Domingues para o texto “Nem sonhando: jogos de palavras na interpretação dos sonhos de Freud”. Colagem surreal em formato vertical com letras dispersas, imagens oníricas e composição inspirada em A Interpretação dos Sonhos de Freud.
Eis a fábrica de poetas, o sonho.

Freud observa que o sonho pode utilizar praticamente qualquer recurso disponível para transformar pensamentos em imagens oníricas. Isso inclui trocadilhos, semelhanças sonoras, expressões populares, ditos cotidianos e até números.


Em um dos exemplos apresentados, uma mulher sonha que uma criada lhe atira um chimpanzé e um gato. Freud mostra que o sonho tomou literalmente a expressão “soltar os bichos”. O conteúdo do sonho não deve ser lido como um símbolo misterioso a ser decifrado universalmente, mas neste caso, como uma transformação figurada da própria fala cotidiana.


Em outro caso, Freud descreve um sonho em que a ideia de algo “supérfluo” aparece representada por imagens de água escorrendo, paredes úmidas e excesso de fluidez. O pensamento abstrato sofre deslocamentos até adquirir uma forma sensorial capaz de aparecer no sonho.


A lógica do sonho não é a mesma da comunicação racional cotidiana. O sonho aproxima palavras por:


  • sonoridade;

  • ambiguidade;

  • imagens associadas;

  • restos de frases;

  • expressões cristalizadas culturalmente.


Por isso Freud aproxima o funcionamento do sonho dos rébus (enigmas visuais compostos por imagens, letras e sons) e dos jogos verbais. Em certos momentos, o sonho parece operar mais pela aproximação entre palavras do que pela linearidade de uma explicação racional.


O sonho desenha as palavras


Freud também observa que muitas palavras carregam sentidos antigos, concretos e visuais que permanecem ocultos no uso cotidiano da linguagem verbal. O sonho pode recuperar justamente essa dimensão mais primitiva das palavras.


Aquilo que, na vigília, aparece como expressão abstrata pode retornar no sonho sob forma figurada. Em vez de obedecer à clareza racional da fala consciente, o sonho reaproxima palavra e imagem.


Isso ajuda a compreender por que tantos sonhos parecem estranhos ou excessivamente literais. Não se trata de um defeito da atividade psíquica durante o sono. Ao contrário: trata-se de um modo específico de funcionamento do trabalho do sonho.


Freud mostra que os sonhos frequentemente:


  • desmontam frases;

  • reorganizam pedaços de falas;

  • condensam diferentes sentidos numa única palavra;

  • transformam sons em imagens;

  • aproximam ideias por semelhança fonética.


Em um exemplo citado por Freud, um jogo sonoro entre palavras alemãs permite que o sonho condense diferentes pensamentos numa única imagem verbal. O sonho trabalha menos como tradução direta e mais como montagem.


Os números e cálculos nos sonhos


Freud dedica parte importante desse capítulo aos números e cálculos presentes nos sonhos. À primeira vista, muitos deles parecem absurdos ou incorretos. Contudo, sua interpretação mostra que os números não surgem como operações matemáticas propriamente ditas, mas como condensações de outras ideias.


Datas podem representar idades.Quantias podem representar tempo.Diferenças numéricas podem condensar relações afetivas.


O sonho não calcula como uma conta racional. Ele utiliza números como utiliza imagens e palavras: como material associativo.


Freud chega mesmo a afirmar que o trabalho do sonho não realiza cálculos verdadeiros. Os números aparecem porque permitem representar pensamentos que talvez não conseguissem surgir de outra forma.


O sonho desmonta e remonta as falas


Outro ponto importante desenvolvido por Freud é o modo como os sonhos tratam frases e diálogos. Muitas vezes, aquilo que aparece no sonho como uma fala única é, na verdade, uma montagem feita de fragmentos distintos.


Partes de conversas escutadas, restos de leituras, ditos cotidianos e expressões ouvidas durante o dia podem ser:


  • cortados;

  • reorganizados;

  • condensados;

  • deslocados;

  • recombinados.


O sonho opera quase como uma edição. Isso ajuda a compreender por que certas frases oníricas parecem simultaneamente familiares e estranhas. Há nelas algo reconhecível, mas reorganizado segundo outra lógica.


Nesse sentido, Freud se afasta bastante da ideia de que o sonho possua um código simbólico fixo e universal. O que importa não é apenas o “significado” isolado de uma imagem, mas a rede de associações que ela mobiliza na história singular de quem sonha.


A plasticidade da palavra no sonho


Nesse trecho de A Interpretação dos Sonhos, Freud mostra como o sonho explora a plasticidade da linguagem verbal, fazendo com que as palavras deixem de funcionar apenas como comunicação objetiva.


As palavras sonhadas:

  • deslizam;

  • condensam sentidos;

  • retornam em sua dimensão imagética;

  • aproximam elementos distantes;

  • criam novas combinações.


Ao mostrar os jogos de palavras nos sonhos, Freud não está propondo um manual de decifração simbólica. Ele está descrevendo um modo de funcionamento psíquico em que pensamento, imagem e palavra deixam de permanecer rigidamente separados.

O sonho não fala apenas sobre algo. Ele também trabalha a forma pela qual algo pode ser dito.


FAQ — Jogos de palavras nos sonhos em Freud


1. O que Freud quer dizer com jogos de palavras nos sonhos?

Freud observa que os sonhos frequentemente utilizam trocadilhos, aproximações sonoras, expressões populares e ambiguidades verbais para transformar pensamentos em imagens oníricas. Em vez de transmitir ideias de maneira direta, o sonho reorganiza palavras e sons segundo a lógica do trabalho do sonho.


2. Por que alguns sonhos parecem literais demais?

Freud mostra que o sonho frequentemente toma expressões ao pé da letra. Uma fala cotidiana pode retornar sob forma visual ou figurada. Isso acontece porque o trabalho do sonho aproxima palavra e imagem, transformando elementos abstratos em cenas concretas.


3. O sonho possui uma linguagem universal?

Freud se afasta da ideia de um código universal de símbolos. Embora certos elementos possam aparecer com frequência nos sonhos, o sentido de uma imagem depende das associações singulares de quem sonha e do contexto em que o sonho foi produzido.


4. Os números nos sonhos possuem significado especial?

Freud observa que números e cálculos podem aparecer nos sonhos como condensações de tempo, idade, dinheiro ou relações afetivas. O sonho não realiza cálculos matemáticos propriamente ditos; ele utiliza números como parte do material associativo do trabalho do sonho.


5. O que este trecho de A Interpretação dos Sonhos revela sobre o trabalho do sonho?

Esse momento da obra mostra que o trabalho do sonho não transforma apenas pensamentos em imagens. Ele também reorganiza a própria palavra, utilizando ambiguidades, sonoridades e deslocamentos para produzir novas formas de representação psíquica.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 6-f.

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Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista, com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF), atende adolescentes e adultos em consultório particular, com atendimentos presenciais em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes (2022). Seu trabalho se orienta pela escuta das formas contemporâneas de sofrimento psíquico, em que se articulam temas como repetição, luto, depressão e os impasses da vida atual — por vezes marcados por experiências de atuação, impulsividade e destrutividade.

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