top of page
Atendimento online e presencial

Inscreva-se para receber os novos posts do blog

Instagram 

  • Instagram

Instagram 

  • Instagram

Instagram 

  • Instagram

Realização de desejo e suas vicissitudes na Interpretação dos Sonhos

Foto do escritor: Jéssica Domingues
Jéssica Domingues
29 de jul.
6 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 7 C - Sobre a realização de desejo - parte 3

Freud amplia a teoria dos sonhos para compreender a psicose e os sintomas neuróticos


No post anterior, vimos que Freud localiza a origem do desejo na experiência de satisfação. Quando uma necessidade retorna, o aparelho psíquico tende a percorrer novamente os caminhos inaugurados por essa vivência, buscando reencontrar a satisfação anteriormente experimentada. Mas essa formulação ainda deixa uma pergunta em aberto.


Como o desejo procura realizar-se?


No capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos, Freud propõe que, em seu funcionamento arcaico, o aparelho psíquico tenta restabelecer a percepção que acompanhou a primeira experiência de satisfação. É dessa tendência que nasce aquilo que ele denomina identidade perceptiva e, ao desenvolver essa ideia, Freud ultrapassa os limites da teoria dos sonhos para lançar as bases de uma compreensão mais ampla do funcionamento psíquico.


Ilustração abstrata em aquarela para o texto "Realização de desejo e suas vicissitudes na Interpretação dos Sonhos", publicada no blog da psicanalista Jéssica Domingues, com camadas translúcidas em tons de azul, cinza e ocre envolvendo um núcleo luminoso difuso.
Toda procura guarda a memória de um encontro acontecido, ou não...

A realização de desejo em seu funcionamento arcaico


Quando uma necessidade reaparece, o aparelho psíquico tende a reinvestir a lembrança da percepção que esteve associada à satisfação.


Seu objetivo não é simplesmente recordar o passado, mas fazer coincidir a percepção presente com aquela anteriormente experimentada.


Freud denomina essa tendência de identidade perceptiva. Nesse modo de funcionamento, a satisfação é buscada pela restituição da própria percepção.


A experiência alucinatória de satisfação


Se essa tendência pudesse atingir plenamente seu objetivo, bastaria reinvestir a lembrança da satisfação para que o desejo fosse realizado.


A lembrança seria investida com tamanha intensidade que passaria a ocupar o lugar da percepção.


É por isso que Freud afirma que o funcionamento arcaico do aparelho conduz a uma experiência alucinatória de satisfação.


Nesse regime de funcionamento, a satisfação é procurada não pela transformação da realidade, mas pela restauração psíquica da percepção anteriormente vivida.


Contudo, a alucinação não basta


Entretanto, a experiência alucinatória não elimina a necessidade que lhe deu origem. Embora a percepção possa ser psiquicamente restaurada, a condição corporal permanece inalterada. A satisfação não sobrevém.


É justamente esse limite que obriga o aparelho psíquico a abandonar a via mais curta da regressão e buscar outros caminhos capazes de transformar efetivamente a realidade.

Freud considera que o próprio pensamento nasce dessa exigência. Pensar deixa de ser um fim em si mesmo para tornar-se um caminho indireto em direção à realização do desejo.


Uma das vicissitudes da realização de desejo


Ao introduzir a experiência alucinatória de satisfação, Freud não está descrevendo apenas um momento do desenvolvimento infantil. Ele está apresentando um modo arcaico de funcionamento do aparelho psíquico que pode reaparecer em diferentes circunstâncias da vida psíquica.


Por isso, ao discutir os limites da experiência alucinatória, Freud aproxima esse mecanismo das psicoses alucinatórias. Se a catexia interna pudesse manter-se indefinidamente, ela teria o mesmo valor que a percepção proveniente do mundo externo. Nessa situação, o aparelho permaneceria preso à realidade psíquica, em vez de buscar a satisfação por meio da realidade compartilhada.


Mais adiante, Freud retoma essa ideia para afirmar que o sonho conserva uma amostra desse funcionamento primário e que ele pode voltar a tornar-se predominante na psicose. Assim, o sonho e a psicose não são fenômenos idênticos, mas compartilham um mesmo modo arcaico de funcionamento, no qual a realidade psíquica tende a prevalecer sobre a realidade externa.


Outra vicissitude: os sintomas neuróticos


A ampliação proposta por Freud não se encerra na psicose. Ao final desse mesmo item, ele afirma que a teoria dos sintomas psiconeuróticos culmina numa única proposição: também os sintomas devem ser compreendidos como realizações de desejos inconscientes.


O sintoma neurótico exige a convergência de duas correntes psíquicas distintas. Nas palavras de Freud, um sintoma histérico só pode surgir quando duas realizações de desejo opostas, provenientes de sistemas psíquicos diferentes, encontram uma expressão comum.


O sintoma deixa, assim, de representar apenas um desejo inconsciente e passa a constituir uma formação de compromisso entre forças psíquicas em conflito.


Uma teoria que ultrapassa os sonhos


Ao acompanhar as vicissitudes da realização de desejo, Freud amplia progressivamente o alcance desse conceito.


O sonho preserva uma forma arcaica de realização do desejo por meio da regressão e da experiência alucinatória de satisfação.


Nas alucinações, esse modo de funcionamento pode adquirir predominância, fazendo com que a realidade psíquica prevaleça sobre a realidade compartilhada.


Nos sintomas neuróticos, por sua vez, a realização de desejo assume outra configuração: ela deixa de ser a expressão de uma única corrente psíquica para tornar-se um compromisso entre sistemas distintos.


Desse modo, a realização de desejo deixa de ser apenas uma teoria sobre os sonhos e passa a constituir um dos princípios fundamentais da metapsicologia freudiana. O que começou como uma investigação sobre o sonho revela-se, pouco a pouco, uma teoria sobre diferentes modos de funcionamento da vida psíquica.


FAQ - Realização de desejo na interpretação dos sonhos - parte 3


1 - O que é a realização de desejo em Freud?

A realização de desejo é um dos conceitos centrais de A Interpretação dos Sonhos. Freud propõe que o sonho representa a tentativa do aparelho psíquico de realizar um desejo, ainda que essa realização ocorra de forma disfarçada ou simbólica, ou atenda apenas um dos sistemas psíquicos.


2 - O que é a experiência alucinatória de satisfação?

Diante do retorno de uma necessidade, o psiquismo tenta restabelecer a percepção associada à primeira experiência de satisfação de forma alucinatória. Esse é o funcionamento arcaico do aparelho psíquico descrito por Freud, anterior ao predomínio do pensamento orientado pela realidade.


3 - O que Freud chama de identidade perceptiva?

Identidade perceptiva é a tendência do aparelho psíquico de reproduzir a percepção ligada à satisfação anterior. Em vez de modificar a realidade externa, o psiquismo busca restituir internamente essa percepção, característica do funcionamento arcaico descrito por Freud.


4 - Como a realização de desejo aparece nos sintomas neuróticos?

Para Freud, os sintomas neuróticos também podem ser compreendidos como realizações de desejo. Sua formação exige a convergência de correntes psíquicas provenientes de sistemas distintos, constituindo uma formação de compromisso.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 7-c.


Continue lendo:

Se você gostou deste texto, talvez se interesse por:

Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista, com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF), atende adolescentes e adultos em consultório particular, com atendimentos presenciais em Higienópolis (São Paulo), além de atendimentos online. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes (2022). Seu trabalho se orienta pela escuta das formas contemporâneas de sofrimento psíquico, em que se articulam temas como repetição, luto, depressão e os impasses da vida atual — por vezes marcados por experiências de atuação, impulsividade e destrutividade.

 

Se esse texto te deixou pensando, e quiser conversar sobre um possível início, você pode agendar uma sessão ou me escrever.

Comentários


Este conteúdo é protegido por direitos autorais. A reprodução, tradução ou adaptação não autorizada, total ou parcial, é proibida. Se desejar compartilhar, cite a fonte com o link original.

whatsapp_edited.png
bottom of page