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Realização de desejo na interpretação dos sonhos: a força que move o sonhar

Foto do escritor: Jéssica Domingues
Jéssica Domingues
15 de jul.
6 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 7 C - Sobre a realização de desejo - parte 1


Ao longo de A Interpretação dos Sonhos, Freud repete inúmeras vezes que todo sonho é uma realização de desejo. No capítulo VII, porém, a realização de desejo na interpretação dos sonhos deixa de ser apenas uma hipótese sobre o significado dos sonhos e passa a ocupar um lugar central na compreensão de seu funcionamento psíquico. Poucas afirmações da psicanálise despertaram tantas objeções quanto essa — algo que o próprio Freud voltará a reconsiderar ao introduzir o conceito de pulsão de morte.


Afinal, como compreender os sonhos de angústia? E os pesadelos? Como sustentar essa hipótese diante de sonhos que parecem expressar sofrimento, culpa ou perda?

No capítulo VII, Freud retorna a essa questão. Depois de descrever o trabalho do sonho, apresentar o aparelho psíquico e explicar a regressão, ele passa a perguntar o que coloca todo esse movimento em funcionamento.


Sua resposta permanece a mesma: o sonho nasce de um desejo.


Mas essa afirmação talvez seja muito diferente daquilo que costumamos imaginar quando ouvimos a palavra desejo.


Composição abstrata em aquarela com formas translúcidas, linhas curvas e manchas fluidas em tons de lilás, rosa, dourado e cinza sobre fundo claro, ilustrando o texto "Realização de desejo na interpretação dos sonhos: a força que move o sonhar", do blog da psicanalista Jéssica Domingues.
Como Cecília Meireles nos perguntou: será que viver é um sonho que procura um sonho?

A realização de desejo diante de suas objeções


Freud não ignora as dificuldades de sua própria hipótese.


Ele sabe que muitos sonhos parecem contradizê-la. Alguns despertam angústia, outros produzem intenso desprazer e há aqueles cujo conteúdo parece completamente incompatível com qualquer satisfação.


Ainda assim, ele não abandona sua tese.


O que muda é a maneira de compreendê-la.


Quando afirma que o sonho realiza um desejo, Freud não está dizendo que ele apresente aquilo que conscientemente gostaríamos que acontecesse. O desejo que movimenta o sonho pode permanecer inteiramente inconsciente e, justamente por isso, entrar em conflito com aquilo que reconhecemos como nossos interesses conscientes.

A deformação produzida pelo trabalho do sonho continua desempenhando um papel decisivo. Quanto maior a resistência encontrada por determinado desejo, mais distante sua realização poderá parecer na superfície do sonho.


O desejo como força impulsora


Nesse momento da obra, Freud desloca discretamente o centro da discussão.

Já não lhe interessa apenas interpretar o conteúdo dos sonhos.


Sua pergunta passa a ser outra: o que fornece a energia necessária para que um sonho aconteça?


A resposta é o desejo.


Não como tema do sonho, mas como sua força impulsora.


Os restos diurnos podem oferecer o material a partir do qual o sonho será construído. Entretanto, eles não bastam para colocá-lo em movimento.


É preciso que encontrem um desejo inconsciente capaz de investir esse material com energia psíquica.


É justamente por isso que Freud insiste: sem desejo, não há sonho.


O empresário e o capitalista


Para tornar essa ideia mais clara, Freud recorre a uma metáfora bastante conhecida.


Os pensamentos ligados aos acontecimentos do dia funcionariam como um empresário que apresenta um projeto.


Mas nenhum empreendimento começa apenas porque alguém teve uma boa ideia.

É necessário um investidor disposto a fornecer os recursos para colocá-la em prática.

No sonho, esse investidor é o desejo inconsciente.


Os restos diurnos organizam o material do sonho. O desejo fornece o investimento psíquico que permite ao trabalho do sonho acontecer.


A metáfora ajuda a compreender que o desejo não precisa coincidir com aquilo que aparece no conteúdo manifesto do sonho. Sua função principal é fornecer a força que impulsiona toda a atividade onírica.


Um desejo que vem de longe


Freud observa que o desejo capaz de sustentar um sonho raramente pertence apenas ao presente.


Os acontecimentos do dia oferecem a ocasião para sonhar, mas o investimento psíquico costuma provir de desejos muito mais antigos, ligados à infância.


Essa hipótese amplia ainda mais a distância entre o conteúdo manifesto do sonho e sua força impulsora.


O sonho deixa de ser compreendido como uma reação imediata aos acontecimentos do dia e passa a revelar a participação contínua de desejos que permanecem ativos ao longo da vida psíquica.


O sonho continua sendo uma realização de desejo


Depois de responder às principais objeções dirigidas à sua teoria, Freud reafirma sua hipótese fundamental.


Mesmo quando produz angústia, estranhamento ou desprazer, o sonho continua sendo colocado em movimento por um desejo inconsciente.


Isso não significa que sua interpretação seja simples.

Ao contrário.


Quanto mais intensa a ação da censura, mais elaborado será o trabalho do sonho para tornar esse desejo compatível com o repouso do sonhador.


A realização de desejo, portanto, não descreve aquilo que o sonho parece mostrar, mas a força psíquica que torna sua formação possível.


Um passo além


Ao defender que todo sonho é movido por um desejo, Freud resolve apenas parte do problema.


Resta ainda uma pergunta.


De onde nasce esse desejo capaz de colocar em marcha todo o trabalho do sonho?

É justamente essa questão que conduzirá um dos momentos mais fecundos de A Interpretação dos Sonhos. Para respondê-la, Freud deixará de investigar apenas os sonhos e passará a reconstruir a própria origem do desejo na vida psíquica.


FAQ - Realização de desejo na interpretação dos sonhos - parte 1


1. O que Freud quer dizer, no capítulo 7 da interpretação dos sonhos, ao afirmar que todo sonho é uma realização de desejo?

Freud não afirma que todo sonho seja agradável ou revele aquilo que conscientemente gostaríamos que acontecesse. Para ele, o desejo é a força psíquica que coloca o trabalho do sonho em movimento, ainda que permaneça inconsciente e deformado pela censura.


2. Como Freud explica os sonhos de angústia e os pesadelos?

Na interpretação dos sonhos, sonhos de angústia e os pesadelos não levam Freud a abandonar sua hipótese. Eles mostram que o desejo pode entrar em conflito com a censura psíquica, produzindo sonhos cujo conteúdo manifesto parece incompatível com qualquer satisfação consciente.


3. O que são os restos diurnos na formação dos sonhos?

Os restos diurnos são impressões e acontecimentos recentes que oferecem o material para a construção do sonho. No entanto, segundo Freud, eles só se tornam um sonho quando recebem o investimento de um desejo inconsciente.


4. O que significa a metáfora do empresário e do capitalista?

Freud compara os restos diurnos a um empresário que apresenta um projeto e o desejo inconsciente a um capitalista que fornece os recursos para realizá-lo. A metáfora ilustra que os acontecimentos do dia, por si sós, não bastam para produzir um sonho.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 7-c.

  • Meirelles, C (1959). Poesia completa, Sonhei um Sonho.


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Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista, com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF), atende adolescentes e adultos em consultório particular, com atendimentos presenciais em Higienópolis (São Paulo), além de atendimentos online. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes (2022). Seu trabalho se orienta pela escuta das formas contemporâneas de sofrimento psíquico, em que se articulam temas como repetição, luto, depressão e os impasses da vida atual — por vezes marcados por experiências de atuação, impulsividade e destrutividade.

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