Regressão na interpretação dos sonhos: esboço do aparelho psíquico
- Jéssica Domingues
- há 9 horas
- 6 min de leitura
Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos”
A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos
Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.
Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.
Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.
Capítulo 7 B - Regressão
"O sonho é um ato psíquico genuíno; sua força impulsora é sempre um desejo a ser realizado; sua irreconhecibilidade como desejo e suas muitas peculiaridades e absurdos resultam da influência da censura psíquica que ele sofreu em sua formação, uma coerção à condensação do material psíquico, uma consideração pela figurabilidade em imagens sensoriais e — ainda que não regularmente — uma consideração por um exterior racional e inteligível para o produto onírico."
Poucas passagens de A Interpretação dos Sonhos resumem tão bem o caminho percorrido por Freud até aqui.
Antes de avançar para uma nova etapa de sua investigação, ele interrompe momentaneamente a marcha do livro para reunir aquilo que conquistou ao longo dos capítulos anteriores. O sonho é um ato psíquico; realiza um desejo; sofre a ação da censura; condensa representações; desloca afetos; transforma pensamentos em imagens e procura apresentar seu conteúdo sob uma aparência minimamente inteligível.
Essa síntese não representa uma conclusão. Ao contrário, inaugura um novo problema.
Até agora, Freud descreveu como o sonho se forma. A partir deste momento, sua pergunta passa a ser outra: que funcionamento psíquico torna possível esse trabalho?
É dessa mudança que nasce o capítulo VII e, com ele, a discussão sobre a regressão na interpretação dos sonhos.

Por que a regressão na interpretação dos sonhos exige um aparelho psíquico?
Ao investigar os mecanismos responsáveis pela formação dos sonhos, Freud percebe que eles exigem uma explicação mais ampla.
Como compreender a ação da censura? De onde parte o desejo que impulsiona o sonho? Como explicar que determinados pensamentos consigam alcançar a consciência apenas depois de sofrer tantas transformações?
Responder a essas perguntas exige abandonar uma descrição exclusivamente dos sonhos para propor um modelo do funcionamento da própria vida psíquica.
É nesse momento que Freud realiza um dos movimentos mais importantes de toda a obra.
Das instâncias aos sistemas
Nos capítulos anteriores, Freud já havia formulado uma hipótese decisiva: a existência de duas instâncias psíquicas.
Uma delas produz os pensamentos que darão origem ao sonho. A outra exerce uma função crítica, submetendo esse material a uma censura que impede seu acesso direto à consciência.
Agora essa hipótese ganha uma forma mais elaborada.
Freud escreve:
"Vimos que se tornou impossível para nós explicar a formação do sonho se não quiséssemos ousar a conjectura de duas instâncias psíquicas, uma das quais submete a atividade da outra a uma crítica, resultando disso uma exclusão da consciência."
Mas, ao fazê-lo, introduz também uma importante mudança de linguagem.
Em vez de falar apenas em instâncias, passa a descrevê-las como sistemas que compõem um aparelho psíquico.
Essa mudança pode parecer apenas terminológica. Na realidade, ela inaugura uma nova forma de pensar o funcionamento do que virá a ser chamado de aparelho psíquico.
O aparelho psíquico como modelo
Freud deixa claro que não pretende localizar anatomicamente esses sistemas.
Para tornar seu raciocínio inteligível, propõe imaginar o aparelho psíquico como um instrumento óptico — semelhante a um microscópio ou a um aparelho fotográfico — em que diferentes sistemas participam sucessivamente da formação da imagem.
Trata-se de um modelo teórico.
Seu objetivo não é descrever estruturas cerebrais, mas representar o percurso realizado pelos processos psíquicos.
Nesse aparelho hipotético, Freud distingue inicialmente um sistema responsável pelas percepções, outro encarregado da memória e, posteriormente, introduz os sistemas inconsciente, pré-consciente e consciente, organizando-os segundo uma direção pela qual as excitações costumam percorrer o aparelho.
Mais do que desenhar uma estrutura, ele procura compreender uma dinâmica.
A primeira tópica começa a tomar forma
É nesse contexto que aparecem, de maneira mais clara o que serão, os sistemas inconsciente (Ics.), pré-consciente (Pcs.) e consciente (Cs.).
Freud observa que a instância responsável pela crítica mantém uma relação mais estreita com a consciência do que aquela cujos conteúdos são submetidos à censura.
Essa formulação antecipa questões que serão amplamente desenvolvidas apenas anos depois. Entretanto, neste momento da obra, Freud ainda não trabalha com os conceitos de id, ego e superego, que pertencem à chamada segunda tópica.
O que encontramos aqui é o primeiro grande esboço de uma cartografia do aparelho psíquico.
Uma cartografia construída para responder a uma pergunta clínica: como determinados conteúdos permanecem inconscientes enquanto outros conseguem alcançar a consciência?
Um novo problema se anuncia
Ao propor esse modelo, Freud percebe que ainda resta uma questão decisiva.
Se, durante a vida desperta, os processos psíquicos percorrem habitualmente um determinado caminho, como explicar que, nos sonhos, pensamentos abstratos apareçam sob a forma de imagens vívidas, quase como percepções?
Responder a essa pergunta exigirá introduzir um novo conceito: a regressão.
É justamente ela que permitirá compreender por que, durante o sonho, o pensamento parece abandonar sua forma habitual para adquirir novamente a vivacidade das imagens.
Esse será o próximo passo da investigação de Freud e será abordado no próximo texto aqui no blog, dando continuidade ao item "Regressão" do tão importante capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos.
FAQ - Regressão na interpretação dos sonhos, parte 1
1. O que Freud retoma ao iniciar o item sobre regressão?
Freud retoma os principais resultados de sua investigação: o sonho é um ato psíquico, realiza um desejo, sofre a ação da censura e se forma por processos como condensação, figurabilidade e elaboração secundária.
2. Por que Freud precisa esboçar o aparelho psíquico?
Porque os mecanismos do sonho exigem uma hipótese sobre o funcionamento psíquico. Para explicar como certos pensamentos são barrados, modificados ou alcançam a consciência, Freud propõe um modelo composto por diferentes instâncias ou sistemas.
3. O que muda quando Freud fala em sistemas?
Freud passa a imaginar o aparelho psíquico como um instrumento composto por partes articuladas. Essa linguagem permite pensar o percurso das excitações, a relação entre percepção, memória, inconsciente, pré-consciente e consciente.
4. O que esse esboço tem a ver com a regressão?
O esboço do aparelho psíquico prepara a compreensão da regressão. Se os processos psíquicos costumam seguir uma direção, será preciso entender como, nos sonhos, esse percurso pode se inverter e fazer com que pensamentos se apresentem como imagens.
Referência:
Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 7-b.
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Sobre a Autora:
Jéssica Domingues é psicanalista, com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF), atende adolescentes e adultos em consultório particular, com atendimentos presenciais em Higienópolis (São Paulo), além de atendimentos online. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes (2022). Seu trabalho se orienta pela escuta das formas contemporâneas de sofrimento psíquico, em que se articulam temas como repetição, luto, depressão e os impasses da vida atual — por vezes marcados por experiências de atuação, impulsividade e destrutividade.
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