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O inconsciente e a consciência: a realidade psíquica na clínica do sonho de Freud

Foto do escritor: Jéssica Domingues
Jéssica Domingues
há 22 horas
10 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 7 F - O inconsciente e a consciência - A realidade


Imagem do texto “O inconsciente e a consciência: a realidade psíquica na clínica do sonho de Freud”, publicado no blog da psicanalista Jéssica Domingues, com uma grande lua parcialmente encoberta por formas arquitetônicas e refletida sobre uma superfície, evocando aquilo que permanece fora do campo de visão e ainda assim produz efeitos.

Sonhei um sonho

e lembrei-me do sonho

e esqueci-me do sonho

e sonhei que procurava

em sonho aquele sonho

e pergunto se a vida

não é um sonho que procurava um sonho.



Cecília Meireles (1959)


In: Poesia Completa

Sonhos (1950-1963)



Ao final de A Interpretação dos Sonhos, Freud retorna a uma questão que atravessou todo o caminho percorrido até aqui.


Quando interpretamos um sonho, de que realidade estamos falando?


Ao longo da obra, acompanhamos pensamentos, desejos e lembranças que permanecem desconhecidos pela consciência e, ainda assim, participam da formação dos sonhos. Vimos que o trabalho do sonho pode deslocar intensidades, condensar diferentes cadeias de pensamento e estabelecer formações de compromisso entre forças distintas.


Nada disso exige que aquele que sonha tenha consciência dos processos psíquicos envolvidos. É justamente essa constatação que permite a Freud dar um passo decisivo.


Se processos de pensamento complexos podem ocorrer sem se tornarem conscientes, já não é possível fazer coincidir aquilo que é psíquico com aquilo de que temos consciência.


A consciência deixa de ocupar o lugar privilegiado a partir do qual toda a vida psíquica poderia ser conhecida. E o inconsciente deixa de designar apenas aquilo que ainda não sabemos sobre nós mesmos.


O inconsciente como realidade psíquica


Freud reconhece que só podemos conhecer um processo inconsciente quando ele produz algum efeito capaz de chegar à consciência. Esse efeito, entretanto, não corresponde necessariamente ao processo que o produziu.


É preciso partir daquilo que se apresenta à consciência e, por inferência, procurar os processos psíquicos que participaram de sua formação. O sonho ofereceu a Freud uma das possibilidades de realizar justamente esse percurso.


Freud afirma que o inconsciente constitui a esfera mais ampla da vida psíquica. Tudo aquilo que se torna consciente possui um estágio preliminar inconsciente, enquanto muitos processos podem permanecer inconscientes e, ainda assim, conservar plenamente seu caráter psíquico.


É nesse contexto que encontramos uma das formulações mais importantes de A Interpretação dos Sonhos:

“O inconsciente é o psíquico propriamente real, tão desconhecido para nós segundo sua natureza interna quanto o real do mundo externo; ele nos é dado pelos dados da consciência de maneira igualmente tão incompleta quanto o mundo externo pelas informações de nossos órgãos sensoriais.” (Freud, A Interpretação dos Sonhos, p. 640)

A consciência não é uma janela transparente para a totalidade da vida psíquica. Aquilo que sabemos sobre nós mesmos é também uma apresentação parcial de processos que não podemos perceber diretamente.


Aquilo que desconhecemos também produz efeitos


Durante o dia e durante a noite, processos inconscientes continuam participando da vida psíquica. Freud chega a questionar a tendência de atribuirmos exclusivamente à atividade consciente determinadas produções intelectuais e criativas, lembrando que aquilo que aparece à consciência pode ser resultado de um trabalho que já vinha ocorrendo sem sua participação. O sonho ganha então outro estatuto.


Ele já não precisa ser compreendido como uma atividade estranha que se inicia quando adormecemos. Aquilo que nele encontramos pertence à mesma vida psíquica que continua em atividade durante a vigília.


Isso também modifica a maneira como podemos pensar o conhecimento de nós mesmos. Não basta perguntar o que pensamos conscientemente, aquilo que pretendemos ou as razões que conseguimos apresentar para nossas escolhas.


Há processos que participam daquilo que fazemos, sentimos e desejamos sem que, por isso, possamos reconhecê-los imediatamente. Reconhecer a existência do inconsciente significa admitir uma diferença entre a vida psíquica e aquilo que sabemos sobre ela.


Se encontramos nos sonhos desejos dos quais nada sabíamos, que valor devemos atribuir a eles?


Realidade psíquica e realidade externa


A questão torna-se especialmente delicada quando Freud se pergunta sobre o significado moral dos desejos inconscientes. Se um desejo aparece na análise de um sonho, devemos considerá-lo uma expressão direta do caráter de quem sonha?


Freud recorda o caso de um imperador romano que teria ordenado a execução de um homem porque este sonhara que assassinava o imperador. Antes de qualquer julgamento, diz Freud, seria preciso descobrir o que aquele sonho significava.


E, mesmo que a interpretação conduzisse efetivamente a um desejo de assassinar o imperador, ainda permaneceria uma diferença fundamental entre desejar, sonhar e agir.


É nesse ponto que Freud recupera uma formulação atribuída a Platão: o homem virtuoso se contenta em sonhar aquilo que o homem perverso realiza.


Freud conclui: é melhor absolver os sonhos. Isso não significa retirar dos desejos inconscientes sua importância. Ao contrário, depois de afirmar que o inconsciente constitui a realidade psíquica, seria impossível simplesmente descartá-los como irreais.


O que Freud estabelece é uma distinção entre diferentes formas de realidade. A realidade psíquica possui uma forma própria de existência e não deve ser confundida com a realidade material. Um desejo pode ser psiquicamente real sem ter sido transformado em uma ação no mundo. Reconhecer sua realidade não exige tratá-lo como se já tivesse sido realizado.


O desejo inconsciente revela quem somos?


A distinção se torna ainda mais importante quando tentamos transformar aquilo que encontramos no inconsciente em um julgamento sobre uma pessoa. Freud recomenda cautela. Para a finalidade prática de julgar o caráter, considera que as ações e opiniões conscientemente expressas devem ser colocadas em primeiro plano. Entre um impulso e uma ação existe toda a complexidade da vida psíquica.


Um desejo pode encontrar resistências, entrar em conflito com outros investimentos, sofrer transformações ou simplesmente nunca alcançar qualquer realização. Por isso, aquilo que aparece em um sonho não constitui uma espécie de verdade secreta que, finalmente revelada, permitiria dizer quem alguém realmente é.


Há alguma clareza oferecida pela análise do sonho, mas ela é mais complexa. Ela nos coloca diante da multiplicidade de forças que participam da vida psíquica. Freud chega a dizer que é instrutivo conhecer o terreno revolvido de onde brotam nossas virtudes. A complexidade de um caráter, impelido em diferentes direções por forças dinâmicas, raramente pode ser reduzida às alternativas simples propostas pelo julgamento moral.


Conhecer nossos desejos inconscientes, portanto, não significa descobrir, escondida sob a consciência, uma versão mais verdadeira de quem somos. Significa poder reconhecer algo da complexidade que nos constitui.


Conhecer um desejo não é realizá-lo


Essa distinção talvez nos permita avançar um pouco além daquilo que Freud formula diretamente neste trecho. Se a realidade psíquica não deve ser confundida com a realidade externa, reconhecer um desejo também não significa obedecer a ele.


Podemos saber de sua existência sem transformá-lo em ação. Podemos reconhecer que determinado investimento nos pertence sem concluir que a realidade exterior deva adaptar-se a ele.


Essa diferença é particularmente importante porque alguns desejos podem permanecer ligados a formas de satisfação que não encontram possibilidade de realização na realidade externa. Reconhecê-los não elimina essa impossibilidade. Mas talvez modifique nossa relação com aquilo que desejamos.


E é aqui que o modelo de análise do sonho construído por Freud na Interpretação dos Sonhos pode oferecer uma das maneiras possíveis de pensar o trabalho de uma análise pessoal.


Da interpretação dos sonhos à análise pessoal


Uma análise pode criar condições para que algo da realidade psíquica se torne acessível sem que, para isso, seja confundido com a realidade exterior. Nesse percurso, podemos nos aproximar de desejos que desconhecíamos, reconhecer os investimentos que permanecem ligados a eles e nos situar diante daquilo que nos cabe.


Apropriar-se de um desejo não significa necessariamente realizá-lo na forma em que ele se apresenta. Pode significar reconhecer os caminhos pelos quais procurou satisfação, os conflitos nos quais se encontra implicado e aquilo que, em sua configuração atual, permanece sem possibilidade de encontrar satisfação na realidade externa. Essa distinção pode abrir algum espaço de movimento.


Aquilo que permanecia intensamente investido na realidade psíquica, sem possibilidade de satisfação, pode encontrar outros destinos. Ainda que imperfeitamente. A realidade exterior não reproduz a realidade psíquica, e aquilo que desejamos não encontra necessariamente no mundo uma forma capaz de satisfazê-lo integralmente.


Mas, ao podermos nos situar diante de nossos próprios desejos, talvez algo daquilo que permanecia restrito à realidade psíquica possa transitar de outras maneiras pela realidade exterior e encontrar nela alguma possibilidade de satisfação.


Esse não é o único modelo possível para pensar uma análise.


Mas é uma possibilidade que se abre a partir do caminho percorrido por Freud através dos sonhos: distinguir realidade psíquica e realidade externa sem precisar sacrificar uma em nome da outra.


O futuro à imagem do passado


Talvez não seja por acaso que Freud termine A Interpretação dos Sonhos retornando ao problema do tempo. Os sonhos podem prever o futuro?


Freud responde que não. Seria mais correto dizer que eles nos oferecem conhecimento do passado, pois é do passado que se originam. Ainda assim, reconhece algo de verdadeiro na antiga crença de que os sonhos apontariam para o futuro.


Ao apresentarem nossos desejos como realizados, os sonhos efetivamente nos transportam para ele. Mas há uma condição. Esse futuro que aparece como presente no sonho foi, nas palavras de Freud, moldado pelo desejo indestrutível à imagem e semelhança do passado.


Talvez possamos terminar nosso percurso justamente aí.


Durante toda A Interpretação dos Sonhos, Freud seguiu os caminhos pelos quais desejos encontram maneiras de permanecer ativos, transformar-se e procurar satisfação. Ao final, descobrimos que aquilo que desconhecemos em nossa vida psíquica não deixa, por isso, de participar dela.


Uma análise não pode nos prometer que deixaremos de carregar nosso passado, que todos os nossos desejos poderão ser satisfeitos.


Se o desejo tende a desenhar o futuro à imagem do passado, conhecer algo dos caminhos pelos quais desejamos pode ampliar os destinos que possibilitamos a nós mesmos.


Deixando de sermos reféns da profecia do oráculo, como Édipo e todo aquele que chama de destino aquilo profetizado pelo próprio inconsciente.


FAQ - O Inconsciente e a Consciência - A realidade


1 - O que é realidade psíquica para Freud?

Em A Interpretação dos Sonhos, Freud afirma que “o inconsciente é o psíquico propriamente real”. Processos inconscientes permanecem ativos e produzem efeitos mesmo sem serem diretamente acessíveis à consciência. A realidade psíquica possui uma forma própria de existência e não deve ser confundida com a realidade material.


2- O inconsciente é mais verdadeiro que a consciência para Freud?

Talvez possamos pensar o inconsciente como a face da Lua que não vemos: permanecer fora do nosso campo de visão não faz com que deixe de compor a Lua. Ela continua participando de um mesmo corpo, recebendo e exercendo efeitos em sua relação com outros astros. De maneira semelhante, aquilo que permanece inconsciente não constitui uma vida psíquica separada nem deixa de participar dela por não ser diretamente acessível à consciência. Freud mostra que a consciência nos oferece um acesso apenas parcial à vida psíquica, enquanto processos inconscientes permanecem ativos e capazes de produzir efeitos.


3 - Um desejo inconsciente revelado em um sonho mostra quem a pessoa realmente é?

Freud distingue desejos inconscientes, pensamentos, ações e julgamentos sobre o caráter. Além disso, embora compreenda nesse momento de sua obra o sonho como uma realização de desejo, aquilo que chega ao sonho passa pelo trabalho do sonho e por suas distorções. Por isso, seu conteúdo não deve ser tomado em sua literalidade, tampouco como revelação imediata de uma verdade oculta sobre quem sonha. Um desejo pode ser psiquicamente real sem ser transformado em ação, e diferentes forças psíquicas participam do destino que ele encontrará.


4 - Reconhecer um desejo inconsciente significa realizá-lo?

Reconhecer um desejo não implica realizá-lo tal como ele se apresenta. A distinção entre realidade psíquica e realidade externa permite reconhecer aquilo que participa de nossa vida psíquica sem tratar um desejo como uma exigência de ação ou esperar que a realidade exterior corresponda integralmente a ele.


5 - Qual é a relação entre a interpretação dos sonhos e uma análise pessoal?

O modelo de análise dos sonhos desenvolvido por Freud permite pensar uma das vias possíveis do trabalho analítico: aproximar-se de aspectos da realidade psíquica, reconhecer desejos e investimentos inconscientes e distinguir sua existência psíquica das possibilidades de satisfação encontradas na realidade externa.



Este texto encerra a série de leituras de A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud. Ao longo da série, acompanhamos a construção da teoria dos sonhos e alguns dos conceitos que, a partir dela, passam a sustentar a compreensão freudiana da vida psíquica.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 7-f.


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Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista, com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF), atende adolescentes e adultos em consultório particular, com atendimentos presenciais em Higienópolis (São Paulo), além de atendimentos online. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes (2022). Seu trabalho se orienta pela escuta das formas contemporâneas de sofrimento psíquico, em que se articulam temas como repetição, luto, depressão e os impasses da vida atual — por vezes marcados por experiências de atuação, impulsividade e destrutividade.


 

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