top of page
Atendimento online e presencial

Inscreva-se para receber os novos posts do blog

Instagram 

  • Instagram

Instagram 

  • Instagram

Instagram 

  • Instagram

O esquecimento dos sonhos: despertar da resistência

  • Foto do escritor: Jéssica Domingues
    Jéssica Domingues
  • há 7 horas
  • 7 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 7 a - O esquecimento dos sonhos


No início de A Interpretação dos Sonhos, Freud falou sobre o tema do esquecimento dos sonhos. Agora retorna mais uma vez a essa questão. Não por acaso. Afinal, de que adianta sustentar que os sonhos possuem sentido se, ao despertar, muitas vezes nos vemos diante de fragmentos desconexos ou da sensação incômoda de que sonhamos muito sem conseguir recordar quase nada?



Como vimos anteriormente, os temas retomados por Freud nesse momento da obra não retornam para serem repetidos, mas para ganharem elaboração. O esquecimento dos sonhos não é exceção.


Ilustração do blog da psicanalista Jéssica Domingues para o texto “O esquecimento dos sonhos: despertar da resistência”. Paisagem onírica em aquarela composta por fluxos de linhas, formas difusas e um centro luminoso de conexões entrelaçadas. A imagem sugere a tensão entre lembrança e esquecimento, a dinâmica das associações e o limite da interpretação representado pelo umbigo do sonho.
A serviço do recalque, a resistência tenta manter adormecida a consciência que traz à tona o conflito.

Do problema da memória ao problema da resistência


A principal novidade do capítulo VII é o deslocamento da questão da memória para a questão da resistência.


Freud reconhece que nossa lembrança dos sonhos é frequentemente fragmentária e incerta. Contudo, ele refuta a ideia de que isso possa ser explicado apenas por uma suposta fragilidade da memória durante a passagem entre o sono e a vigília.

O que está em jogo é algo mais complexo.


Ao analisar seus próprios sonhos e os de seus pacientes, Freud observa que o esquecimento parece obedecer a uma lógica. Certos elementos desaparecem, outros permanecem, algumas partes do sonho reaparecem durante a análise e, não raro, justamente os trechos inicialmente esquecidos revelam-se os mais importantes para sua compreensão.


O esquecimento deixa de ser entendido como uma simples falha da memória e passa a ser pensado como efeito da resistência.


Em outras palavras: as mesmas forças psíquicas que deformaram o sonho durante a noite continuam atuando após o despertar, dificultando que determinados conteúdos permaneçam acessíveis à consciência.


O que significa esquecer uma interpretação?


Uma das observações mais interessantes feitas por Freud nesse capítulo diz respeito à sua própria experiência.


Ele relata ocasiões em que despertou de um sonho, realizou sua interpretação ainda em plena vigília e, posteriormente, esqueceu não apenas o sonho, mas também a interpretação alcançada.


Essa observação possui grande importância teórica.


Se a interpretação ocorreu quando o sonhador já estava desperto, o esquecimento não pode ser explicado apenas pela diferença entre os estados de sono e vigília. A questão passa a ser outra: o que acontece quando determinados pensamentos se aproximam da consciência?


Freud sugere que a resistência continua operando. O problema não está apenas em recordar o sonho, mas em sustentar na consciência os pensamentos aos quais ele conduz.


O esquecimento aparece, assim, como uma continuação do trabalho defensivo que já participava da formação do sonho.


Quando um sonho antigo se torna mais acessível


Essa mesma lógica ajuda a compreender outra observação clínica de Freud.


Ele relata que alguns sonhos podem ser interpretados com mais facilidade anos depois de terem ocorrido do que no momento em que foram sonhados.


À primeira vista, isso parece contraditório. Afinal, esperaríamos que a passagem do tempo tornasse a lembrança mais difícil.


Contudo, para Freud, a questão não depende apenas da memória. Em certos casos, a dificuldade inicial residia na intensidade das resistências mobilizadas pelos pensamentos oníricos. Quando essas resistências se modificam, torna-se possível estabelecer novas ligações associativas e alcançar sentidos que antes permaneciam inacessíveis.


Não se trata de recuperar um arquivo intacto do passado, mas de reconhecer que a relação do sonhador com seus conteúdos psíquicos também se transforma ao longo do tempo.


Sonhos, sintomas e atos falhos


Ao comentar sua experiência clínica, ele observa que sintomas neuróticos antigos podem ser reconstruídos pela análise mesmo muitos anos depois de sua primeira manifestação. O problema não está na distância temporal, mas nas resistências que impedem o acesso ao material psíquico.


Essa formulação aproxima o esquecimento dos sonhos de fenômenos que Freud explorará em Psicopatologia da Vida Cotidiana.


Assim como o esquecimento de um nome próprio não é necessariamente uma falha casual da memória, o esquecimento de um sonho também pode ser compreendido como um acontecimento dotado de sentido. Em ambos os casos, o que parece ausência revela a ação de forças psíquicas em conflito.


A associação livre e a orientação de sentido


O capítulo VII também oferece uma importante defesa do método associativo.

Freud responde à crítica segundo a qual a associação livre conduziria a conexões arbitrárias e sem valor interpretativo. Sua resposta é decisiva: as associações não se organizam ao acaso.


Quando abandonamos um objetivo consciente de pensamento, não mergulhamos no caos. Outras determinações continuam operando, ainda que não sejam imediatamente reconhecidas pelo paciente.


Essa formulação aprofunda uma ideia já presente na discussão sobre o deslocamento nos sonhos. Elementos aparentemente secundários, banais ou distantes do centro do relato podem ocupar o lugar de conteúdos mais importantes que foram submetidos à ação da censura.


Por isso, uma associação superficial não deve ser descartada apressadamente. Muitas vezes ela constitui justamente o caminho possível para alcançar uma ligação mais significativa que não poderia aparecer de forma direta.


O umbigo do sonho


Apesar de defender a existência de uma orientação de sentido nas associações e a possibilidade de interpretar os sonhos, Freud não transforma a análise numa promessa de transparência absoluta.


Ao contrário.


É nesse capítulo que surge uma de suas formulações mais conhecidas: a ideia do umbigo do sonho.


Mesmo nos sonhos mais cuidadosamente analisados, afirma Freud, permanece um ponto em que a interpretação encontra um limite. Trata-se de uma região em que os pensamentos oníricos se entrelaçam de maneira tão complexa que já não é possível desenredá-los completamente.


O umbigo do sonho é o ponto em que ele mergulha no desconhecido.


Essa observação introduz uma importante nuance na teoria freudiana. Se os sonhos podem ser interpretados e se o esquecimento pode ser trabalhado pela análise, isso não significa que todo o inconsciente possa ser plenamente traduzido em palavras.

O sonho já representa uma aproximação da consciência. Sua própria formação indica que certos conteúdos encontraram uma via de expressão, ainda que distorcida pelo trabalho do sonho e pela resistência. Entretanto, algo permanece irredutível à interpretação completa.


Talvez seja justamente essa tensão que torna os sonhos tão valiosos para a psicanálise. Eles nos aproximam do inconsciente sem jamais esgotá-lo.


FAQ - Esquecimento dos Sonhos


1. Por que esquecemos os sonhos, segundo Freud?

No capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos, Freud propõe que o esquecimento dos sonhos não decorre apenas de limitações da memória. Em muitos casos, ele está relacionado à ação da resistência, que dificulta a permanência de determinados conteúdos na consciência.


2. O que Freud quer dizer ao afirmar que a resistência continua após o despertar?

Freud sugere que as mesmas forças psíquicas que participaram da deformação do sonho continuam atuando quando acordamos. Por isso, algumas lembranças oníricas podem desaparecer rapidamente ou permanecer acessíveis apenas de forma fragmentária.


3. Por que um sonho pode ser mais compreensível anos depois de ter ocorrido?

Freud observa que certos sonhos tornam-se mais acessíveis quando as resistências associadas aos seus pensamentos oníricos se modificam. Nesses casos, a dificuldade não estava apenas na memória, mas nas forças psíquicas que dificultavam o acesso ao conteúdo do sonho.


4. O que a associação livre tem a ver com a interpretação dos sonhos?

A associação livre permite acompanhar as ligações estabelecidas pelo próprio sonhador a partir dos elementos do sonho. Para Freud, essas associações não se organizam ao acaso e podem revelar sentidos que permanecem ocultos no relato manifesto do sonho.


5. O que é o umbigo do sonho?

O umbigo do sonho é o ponto em que a interpretação encontra um limite. Freud utiliza essa expressão para designar aquilo que permanece irredutível à análise, mesmo nos sonhos mais cuidadosamente investigados.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 7-a..

 

 

Continue lendo:

Se você gostou deste texto, talvez se interesse por:


Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista, com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF), atende adolescentes e adultos em consultório particular, com atendimentos presenciais em Higienópolis (São Paulo), além de atendimentos online. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes (2022). Seu trabalho se orienta pela escuta das formas contemporâneas de sofrimento psíquico, em que se articulam temas como repetição, luto, depressão e os impasses da vida atual — por vezes marcados por experiências de atuação, impulsividade e destrutividade.

Se esse texto te deixou pensando, e quiser conversar sobre um possível início, você pode agendar uma sessão ou me escrever.

Comentários


Este conteúdo é protegido por direitos autorais. A reprodução, tradução ou adaptação não autorizada, total ou parcial, é proibida. Se desejar compartilhar, cite a fonte com o link original.

whatsapp_edited.png
bottom of page