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Quando a realidade cede: sonho e psicose em Freud

  • Foto do escritor: Jéssica Domingues
    Jéssica Domingues
  • 31 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Sobre a série “A Interpretação dos Sonhos

A Interpretação dos Sonhos: o inconsciente em imagens e deslocamentos


Publicada em 1900, A Interpretação dos Sonhos é considerada a pedra fundamental da psicanálise. Nela, Freud descreve como o inconsciente se expressa nas imagens oníricas por meio de condensações, deslocamentos e processos de figurabilidade — mecanismos que traduzem o pensamento inconsciente em cenas, símbolos e narrativas.


Com esta série, damos continuidade ao percurso iniciado em “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, texto publicado em 1901 e que pode ser lido como um desdobramento de A Interpretação dos Sonhos. Se ali Freud mostrou como o inconsciente se revela nos lapsos, esquecimentos e atos falhos, aqui ele nos conduz à origem do trabalho onírico, onde o desejo se disfarça em imagem e o sentido se oculta no sonho.


Ao propor que os sonhos são a via régia para o inconsciente, Freud nos convida a atravessar essa fronteira entre o visível e o invisível, entre o que se sonha e o que se cala. Nesta série, acompanharemos essa travessia, explorando os conceitos fundamentais da interpretação dos sonhos e o modo como, ainda hoje, os sonhos seguem sendo uma via de acesso ao inconsciente e à elaboração psíquica.


Capítulo 1 - H - Relações entre o sonho e as doenças mentais


Imagem abstrata em aquarela para o blog da psicanalista Jéssica Domingues, inspirada no texto “Quando a realidade cede: sonho e psicose em Freud”, mostrando um espaço etéreo em tons suaves de azul e bege, com luz difusa, camadas translúcidas e partículas luminosas que sugerem suspensão, afrouxamento da realidade e atmosfera onírica.
O que, em nós, só encontra forma quando a realidade cede?

Quando acreditar não é um problema

Há sonhos que nos deixam perplexos não tanto pelo que mostram, mas pela forma como nos fazem acreditar. Enquanto sonhamos, acreditamos sem esforço. Cenas improváveis se encadeiam, vozes surgem sem fonte reconhecível, gestos que não reconheceríamos como nossos se realizam — e tudo isso, naquele instante, se sustenta como realidade.


Aqui se impõe uma pergunta clínica simples e decisiva: o que acontece com a vida psíquica quando, no sonho, a relação com a realidade da vigília se afrouxa sem que isso signifique adoecimento?


O que, acordados, pediria explicação ou provocaria estranhamento, no sonho surge sem exigir justificativa. Não há ruptura sentida, apenas continuidade. O pensamento parece obedecer a outra gravidade, menos presa às exigências da vida desperta — tema que desenvolvo mais detidamente no texto sobre a relação entre moralidade e o sonhar.


É a partir dessa experiência comum que Freud se aproxima da relação entre o sonhar e os fenômenos que, na vida desperta, costumam ser agrupados sob o campo da patologia. Não para confundi-los, tampouco para reduzi-los, mas para interrogar o funcionamento psíquico quando a vida de vigília deixa de organizar a experiência da mesma forma.


Sonho e psicose em Freud: uma comparação histórica


Ao recolher observações médicas, filosóficas e clínicas do século XIX, Freud mostra que a aproximação entre sonho e doença mental antecede a psicanálise. Diversos autores haviam notado afinidades inquietantes: a fragilidade do juízo, a elasticidade do tempo, a força das imagens, o encadeamento das ideias segundo associações pouco reguladas.

Kant chegou a escrever que o louco seria um sonhador acordado — frase que atravessou a história mais como provocação do que como conceito. Freud acolhe essas comparações, mas não se detém nelas. Ele as recolhe para deslocar a questão.


Seu gesto é claro: tocar no tema sem se deixar capturar por ele. O interesse não está em classificar estados nem em explicar o sonho a partir da doença, mas em compreender o que essas aproximações revelam sobre o funcionamento psíquico quando as amarras habituais da vida desperta se afrouxam.


Quando a vigília deixa de organizar a experiência


O que está em jogo não é decidir se o sonho é normal e a psicose patológica como se uma linha rígida os separasse. A questão é mais delicada: por que certos modos de funcionamento psíquico, que durante a vigília seriam difíceis de sustentar, encontram no sonho um terreno possível?


No sonhar, a experiência de unidade psíquica se afrouxa. Pensamentos se deslocam e retornam sob outras formas, imagens surgem sem precisar de um referente externo, o tempo se comprime ou se estende. Ainda assim, nada disso é vivido como ameaça. O sonho não se apresenta como estranho; ele se impõe como evidente.


Não exige verificação nem confirmação. O sonhador segue, como quem atravessa um cenário que se constrói à medida que é percorrido.


Sonhar não é adoecer


Na vida desperta, experiências semelhantes assumem outro peso. Quando a relação com a realidade compartilhada se fragiliza de modo persistente, quando a dúvida não encontra lugar possível, o sofrimento se instala. A diferença não está nos fenômenos isolados, mas no modo como eles se organizam dentro da vida psíquica.


O sonho admite um afastamento provisório da realidade sem se romper. Ele comporta essa suspensão porque é passageiro e porque o despertar recoloca o mundo em seu lugar. Por isso, sonhar não é enlouquecer; é tocar, por um instante, um modo de funcionamento que, durante o dia, costuma permanecer contido — como uma peça guardada, acessível apenas à noite.


O desejo que pode encontrar passagem


Freud avança então uma hipótese decisiva, ainda formulada com cautela. Tanto nos sonhos quanto nas psicoses, algo insiste em se realizar. Pois, na vida desperta, esse algo foi negado, adiado ou tornado impossível.


O sonho encontra vias indiretas. Às vezes, cria uma passagem. A satisfação que nele se produz não exige autorização nem reconhecimento consciente; ela pode ocorrer à revelia da censura, como a água que, por vezes, encontra uma fenda para continuar seu curso.


Um campo ainda por vir


É nesse ponto que Freud lança uma afirmação prospectiva: ao lado de uma psicologia dos sonhos, será necessário, algum dia, desenvolver uma psicopatologia do sonhar. Não se trata de transformar sonhos em sintomas, nem de submetê-los a classificações. Trata-se de reconhecer o sonho como um campo legítimo para pensar o funcionamento psíquico.


O sonho deixa de ser ruído ou resíduo. Torna-se lugar de trabalho — para quem sonha e para quem escuta.


Freud em retrospecto: os pós-escritos


Nos apêndices escritos anos depois, Freud retorna a esse capítulo com outra tonalidade. Há menos expectativa de convencimento e mais consciência do caminho percorrido. Ele reconhece a resistência do meio científico, a lentidão com que novas ideias encontram acolhimento e, por vezes, deixa escapar uma ironia seca: a novidade costuma encontrar, primeiro, a recusa.


A teoria dos sonhos não nasce acabada. Constrói-se por deslocamentos, revisões e insistências — como o próprio sonho.


Entre aproximações e limites


Talvez seja isso que este trecho ensine com mais delicadeza: compreender os sonhos não é dominá-los, mas sustentar a pergunta que eles abrem quando a realidade cede. Entre o sonhar e o adoecer há zonas de contato, mas também limites que precisam ser preservados.


Confundi-los empobrece a escuta. Separá-los rigidamente nos faz perder aquilo que o sonho ainda insiste em mostrar — não como mensagem clara, mas como experiência viva.




FAQ — Sonho e psicose em Freud

1. O sonho deve ser compreendido como um fenômeno patológico?

O sonho apresenta modos de funcionamento psíquico que, na vida desperta, poderiam ser associados ao adoecimento, como a fragilidade do juízo ou a aceitação de experiências irreais. No entanto, no contexto do sonhar, esses fenômenos participam de um funcionamento psíquico considerado saudável. A diferença não está na forma das experiências, mas no enquadre em que ocorrem e na possibilidade de retorno à vida de vigília ao despertar.


2. Por que Freud aproxima o sonho das psicoses?

Ao discutir a relação entre sonho e psicose em Freud, o autor retoma uma comparação já presente na tradição médica e filosófica para investigar afinidades estruturais entre esses fenômenos. Essa aproximação não busca estabelecer equivalência diagnóstica, mas explorar como o funcionamento psíquico se organiza quando as amarras habituais da vida desperta se afrouxam.


3. O que Freud quer dizer ao falar em uma futura “psicopatologia do sonhar”?

Ao mencionar a necessidade de uma psicopatologia do sonhar, Freud não propõe classificar sonhos como sintomas. Ele indica a importância de levar a vida onírica a sério na compreensão do sofrimento psíquico, reconhecendo que certos mecanismos presentes no sonho também aparecem em estados de adoecimento, sem que isso reduza o sonhar a um fenômeno patológico.


4. Por que Freud insiste nas analogias sem transformar o sonho em doença?

Freud sustenta as analogias entre sonho e psicose para mostrar que ambos revelam aspectos fundamentais do funcionamento psíquico que permanecem menos visíveis na vida de vigília. Ao mesmo tempo, ele se recusa a explicar o sonho a partir da patologia, sugerindo que uma escuta rigorosa da vida onírica pode contribuir para iluminar mecanismos psíquicos que atravessam diferentes modos de sofrimento e de elaboração.


Referência:

  • Freud, S (1900). A interpretação dos sonhos, 1-h.


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Sobre a Autora:

Jéssica Domingues é psicanalista com percurso formativo pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Atende adolescentes, adultos e casais em consultório particular, com atendimento presencial em Higienópolis (São Paulo) e Cerâmica (São Caetano do Sul), além de atendimentos online. Participa de grupos de estudos voltados à psicanálise contemporânea. Interessa-se por temáticas como depressão, luto, repetição e as formas atuais de mal-estar. É autora do artigo “O conceito de limite em André Green como proposta anti-procustiana ao enquadre clássico”, apresentado na Jornada de Membros do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes de 2022.   

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